quarta-feira, 23 de junho de 2010

Lição de vida dada por um Tuareg

O valor da simplicidade, do silêncio e do tempo

Transcrição de um texto retirado de um anexo (.pps) recebido por e-mail, com pequenos retoques na gramática.

Uma bonita entrevista com um tuareg realizada por: Víctor M. Amela, Moussa Agassarid

- Não sei a minha idade. Nasci no Deserto do Saara, sem documentos. Nasci num acampamento dos nómadas tuaregs entre Timbuctu e Gao, ao norte de Mali. Fui pastor de camelos, cabras, cordeiros e vacas de meu pai. Hoje estudo gestão na Universidade de Montpellier. Estou solteiro. Defendo os pastores tuaregs. Sou muçulmano, sem fanatismo.

- Que turbante tão formoso!
- É um tecido fino de algodão: permite tapar o rosto no deserto, e continuar a ver e respirar através dele.

- É de um azul belíssimo…
- Nós, os tuaregs, somos chamados de homens azuis por isso: O tecido solta alguma tinta e a nossa pele adquire tons azulados

- Como conseguem esse tom de azul anil?
- Com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais. Para os tuaregs o azul é a cor do mundo.

- Por quê?
- É a cor dominante: é a Cor do céu, do teto de nossa casa.

- Quem são os tuaregs?
- Tuareg significa “abandonados”, porque somos um velho povo nómada do deserto, solitários e orgulhosos: “Senhores do Deserto, é como nos chamam. Nossa etnia é a amasigh (berbere), e o nosso alfabeto, o tifinagh.

- Quantos são?
- Uns três milhões, e a maioria permanece nómada. Mas a população diminui.. “É preciso que um povo desapareça, para que saibamos que ele existiu!” Apregoava um sábio. Eu luto para preservar esse povo.

- A que se dedicam?
- Pastoreamos rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos num reino de imensidão e de silêncio.

- O deserto é realmente tão silencioso?
- Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se o batimento do próprio coração. Não há lugar melhor para se estar sozinho.

- Quais recordações da sua infância que conserva com maior nitidez?
- Desperto com a luz do sol e ali estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as levamos onde há água e pasto… Assim fizeram meu bisavô, meu avô e meu pai… e eu. Não havia outra coisa no mundo além disso. E eu era muito feliz com isso.

- De fato! Não parece muito estimulante…
- Mas é muito! Aos sete anos já te deixam afastar do acampamento para que aprendas coisas importantes: farejar o ar, escutar, apurar a vista, orientar-se pelo sol e pelas estrelas… E a deixar-se levar pelo camelo, se te perderes. Ele te levará onde há água.

- Saber isso é valioso, sem dúvida…
- Ali tudo é simples e profundo. Existem muito poucas coisas. E cada uma tem um enorme valor!

- Então este mundo e aquele são muito diferentes, não?
- Ali cada pequena coisa te proporciona felicidade. Cada toque é valorizado. Sentimos uma enorme alegria pelo simples facto de nos tocarmos e estarmos juntos. Ali ninguém sonha com chegar a ser, porque cada um já o é!

- O que mais o chocou na sua primeira viagem à Europa?
- Ver as pessoas correndo pelo aeroporto. No deserto só se corre quando vem uma tempestade de areia. Me assustei. É claro!

- Eles apenas iam buscar as suas malas…
- Sim! Era isso. Também vi cartazes de mulheres nuas. Me perguntei: porquê essa falta de respeito para com a mulher? Depois, no Íbis Hotel, vi a primeira torneira da minha vida, vi a água correndo e senti vontade de chorar…

- Que abundância! Que desperdício! Não?
- Todos os dias da minha vida consistiam em procurar água. Quando vejo as fontes ornamentais aquí e acolá, continuo sentindo por dentro uma dor muito intensa…

- Tanto assim?
- Sim! No começo dos anos 90 houve uma grande seca. Morreram os animais e nós adoecemos. Eu tinha uns 12 anos e minha mãe morreu. Ela era tudo para mim! Contava-me histórias e ensinou-me a contá-las muito bem. Ela ensinou-me a ser eu mesmo.

- O que sucedeu com sua família?
- Convenci meu pai que me deixasse ir à escola. Quase todos os dias caminhava 15km. Até que um dia o professor arranjou-me um lugar para dormir e uma senhora me dava o que comer, quando eu passava em frente à sua casa. Entendi que essa ajuda vinha de minha mãe.

- De onde surgiu esse desejo de estudar?
- Uns dois anos antes, havia passado pelo nosso acampamento o rally Paris-Dakar, e uma jornalista deixou cair um livro de sua Mochila. Eu apanhei-o e entreguei-lho. Ela deu-mo de presente. Era um exemplar do Pequeno Príncipe e eu prometi a mim próprio que um dia conseguiria lê-lo.

- E conseguiu.
- Sim! Foi assim que consegui uma bolsa de estudos na França.

- Um Tuareg na universidade!
- Ah, o que mais sinto falta aqui é o leite de camela... E o calor da fogueira, e de andar com os pés descalços na areia quente. Lá nós olhamos as estrelas todas as noites e cada estrela é diferente das outras como cada cabra é diferente. Aqui, à noite, você olha para TV.

- Sim! E o que você acha pior aqui?
- Vocês tem tudo, mas não acham suficiente. Vocês se queixam. Na França passam a vida reclamando! Aprisionam-se pelo resto da vida à uma dívida bancária, num desejo de possuir tudo rapidamente... No deserto não há congestionamentos e você sabe por quê? Porque lá ninguém quer ultrapassar ninguém!

- Conte-me um momento de extrema felicidade no seu deserto distante.
- Todos os dias, duas horas antes do pôr do sol: a temperatura baixa, mas ainda não chegou o frio, e os homens e os animais, lentamente voltam para o acampamento e seus perfis são recortados em um céu cor de rosa, azul, vermelho, amarelo, verde...

- Fascinante, na verdade...
- É um momento mágico... Entramos todos na cabana e colocamos o chá para ferver. Sentamo-nos em silêncio, a ouvir a ebulição... A calma invade todos nós, e o nosso coração bate ao ritmo do barulho da fervura...

-Que paz!

- Aquí vocês tem relógio…… lá temos tempo.
- VOCÊ TEM O RELÓGIO, EU TENHO O TEMPO!
- NA NOSSA VIDA O TEMPO NÃO DEVE SER APENAS O MARCADO NO RELÓGIO.
- QUANTAS VEZES NOS NOSSOS DIAS NOS FALTA “O TEMPO”?
- O tempo é como um rio. Você não pode tocar a mesma água duas vezes, porque a água que passou, não passará de novo.
- Aproveite cada momento da vida...
- ENCONTRE TEMPO PARA VIVER
- Se você vive dizendo como você está ocupado, então você nunca estará livre.
- Se você vive dizendo que você não tem tempo, então você nunca terá tempo.
- Se você vive dizendo o que vai fazer amanhã, esse amanhã nunca chegará.
- Aproveite cada momento da vida ...
- Se você não usar o seu tempo durante o dia, você é o perdedor.
- É impossível voltar atrás.
- Valorize cada momento vivido, e esse tesouro terá muito mais valor se você o partilhar com alguém especial, especial o suficiente para você gastar com ele o seu tempo...
- e lembre-se que o tempo não espera por ninguém


Imagem da Internet

6 comentários:

A. João Soares disse...

Já aqui foi referida a beleza da vida simples, em que a felicidade depende de pouco, o silêncio é uma boa companhia e o tempo é um bem inestimável que nos é proporcionado para o vivermos a cada momento, com intensidade mas sem obsessão.

Sugiro a visita ao post Quem sou?.

Por isso, melhor se compreende o prazer que tive ao encontrar este texto do Tuareg e de o aqui publicar, esperando que seja do agrado dos amigos visitantes.

Fernanda disse...

Querido amogo João,

Fantástico!
O texto é relamente grande, mas é pena que não seja mais divulgado.
É urgente que vejamos, saibamos mais acerca deste povos, dos seus sentimentos e da sua vivência.

Na simplicidade é que se encontra toda a beleza da vida.
O João lembrou-se de quando foi /é pastor...
Eu lembro-me de quando vinha em criança para a casa dos meus avós, aqui no campo e bebia leite de vaca na corte, ali ao lado da vaca mesmo.
De andar descalça e suja, porque não havia banheira, só uma bacia enorme para o banho semanal.
Na cidade estava sempre doente, no campo sempre saudável.

O que este texto me veio lembrar de infinitivamente doce e saudoso, quando os dias eram enormes, cheios de alegria e e amor.
Como era saboroso comer uma sopa só, com um naco de broa e sorrir à mesa como se fosse um lauto repasto.
Tudo isto à luz da candeia e depois ir dormir aconchegada à minha tia Júlia...

Se por um lado fico feliz que este nosso irmão tenha conseguido ler o Principezinho, esteja na Faculdade em França, por ouro lado não sei se ele não terá perdido a sua liberdade.

Beijinhos

Luis disse...

Meus Caríssimos Amigos,
Quem aprendeu a viver na Liberdade difícilmente a perde, nem que para isso tenha que voltar ao deserto!!!Mau é estar-se resignado à prisão pois dessa forma fica amorfo e não sabe reagir ao infortúnio!
Já conhecia mas é sempre bom relembrar!
Um abraço amigo.

Celle disse...

caríssimo, quando li o e-mail e lhe enviei foi porque lembrei-me de uma pessoa especial, que comoveu-me com sua simplicidade e humildade embora,seja inteligente, culto e capacitado. Valoriza o ser e não o ter, que sabe ser feliz com pouco, como o tuareg.
Os mesmos conceitos, os mesmos valores, a mesma sabedoria!
Aqueles olhos tristes e sofridos da foto não temem o calor do deserto, a falta de agua, a vida dura, nada lhe tira o ânimo! Valoriza a simplicidade, o silêncio, onde pode olhar o céu, ver as estrelas, achando normal saciar sua sede e dos animais num oasis e não entendem o desperdicio, a correria, a pressa, a falta de tempo para refletir e sonhar, do homem que se diz civilizado.
Celle

A. João Soares disse...

Queridas Ná e Celle e caro Luís,

Desculpem, mas dá mais jeito responder-lhes em conjunto. Já agradeci à Celle o envio deste anexo por e-mail, pois procuro ser um «primário» com boas maneiras.
Receio muito que o prognóstico do Luís não se realize. O tuareg da história faz lembrar o Adão que caiu na tentação de comer a mação que a Eva lhe deu e, com isso, perdeu o paraíso.
Este jovem foi tentado pelo livro excelente que a jornalista lhe ofereceu. Deixou de ser tuareg, para entrar no «querer ser» que refere no texto como sendo algo indesejável por gerar stress. Se o Pastor do Quem sou? adoptou as vantagens da tecnologia sem abandonar a vida natural e simples, este, pelo contrário, abandonou a vida simples e sem correrias e foi à procura da competição, do querer ter e, para cúmulo, foi para um curso de gestão, onde o valor está na competitividade, na produtividade, na ânsia do lucro.
O texto vale pela descrição da vida de um tuareg, que ele foi, mas é um epitáfio da parte dele que morreu ao estudar, obter a bolsa de estudo e ir estudar para ser gestor. No momento da entrevista, ele já é um infeliz tragado pela engrenagem do «progresso». Quer lutar em defesa dos tuaregues, mas irá fazê-lo por fora, de longe, e incitando-os a irem abraçar o método que ele seguiu.
É mais um Adão que perdeu o paraíso, por ter mordido a mação, neste caso, em forma do belo livro de Antoine de Saint Exupery.
O ser humano está a deixar-se condenar amarrando-se à roda da engrenagem do «progresso» da «civilização».
Transcrevo o que disse à Celle por e-mail:
«Desde a época da pedra lascada, paleolítico, tem havido evolução nas tecnologias (televisão, telemóvel, etc), mas na alma dos homens tem havido degradação, na maneira de encarar a vida, a Natureza, os outros. As relações em família, em grupo e em sociedade estão de tal forma degradadas que já temos muito a aprender com os animais da selva de que frequentemente se vêm imagens das televisões.»
Para este tuareg, o passo que deu foi, do aspecto humano e de felicidade na simplicidade, um retrocesso. Tem que passar a usar relógio para poder ser pontual nas aulas...

Beijos para as senhoras e um abraço para o Luís.
João
Só imagens

Ana Martins disse...

Caro amigo João,
cheguei tarde mas felizmente a tempo de ler um testemunho de vida que é simplesmente uma relíquia.
Dar valor ás pequenas coisas, aos momentos mais simples, sem deixar que o egoísmo e a competição nos envenenem a alma é saber construir a felicidade.

Muito obrigada por este momento, não me perdoaria se o tivesse deixado passar sem que o absorvesse!

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas