terça-feira, 10 de março de 2009

Cavaco preocupado e triste

Segundo notícia do Público, o Presidente da República, Cavaco Silva, admitiu estar “preocupado e até um pouco triste com a situação que o país atravessa, mas continua «muito determinado em falar com os portugueses, conhecer as preocupações daqueles que têm dificuldades e estimular os que têm sucesso”.

Defendeu a criação de um Observatório Regional sobre o emprego e a economia, que agregue os actores sociais e estatais. Isto demonstra a consciência de que o desenvolvimento sustentável não depende tanto do Governo como do civismo das regiões e localidades, abrangendo contributos convergentes de todos os sectores desde o trabalho ao capital.

As justificadas preocupações do PR quando faz visitas ao País real têm um sério significado e podem suscitar o ímpeto malhador do ministro da propaganda. Mas, infelizmente, pela sua repetição, sem efeitos visíveis, demonstram a incapacidade das estruturas do Poder em que ele está inserido como Supremo Magistrado da Nação.

A minha idade e consequentes lembranças do passado levam-me a comparar as suas palavras às proferidas, em fins da década de 60, por Marcelo Caetano quando quis proceder à transparência democrática com as «conversas em família». Periodicamente, após o telejornal, aparecia em nossas casas a explicar a situação do País. Mostrava conhecer todas as dificuldades com que os portugueses se debatiam. Era um encanto de medida democrática!

Mas o mal veio alguns meses depois de ter começado com as «conversas», após ter percorrido todo o rol de problemas e, então, com o mesmo ar seráfico e aparente boa vontade, voltou a referir os problemas já anteriormente equacionados e que entretanto não tiveram resolução. Aí, as pessoas mais atentas começaram a considerar que as «conversas em família» eram uma confissão de incapacidade, talvez por razões justificáveis, mas como não eram explicadas, eram atribuídas a incompetência do Governo, que nem as conversas conseguiam disfarçar. Demorou menos de cinco anos a ser obrigado a deixar o Poder.

Ora, com Cavaco Silva está já a acontecer fenómeno semelhante, concluindo-se que as suas viagens ao interior do País podem ter muito interesse para ele e os seus acompanhantes, mas delas não resulta qualquer benefício visível para a população carenciada que vive, trabalha e sofre no Portugal Profundo, no País Real, não por culpa dele, mas do Governo que é o poder executivo que pode fazer ou deixar de fazer.

É certo que o PR não tem poder para resolver tais problemas, nem o tinha para os evitar, que continuam a ser preocupantes, porém o povo não se satisfaz com sentimentos de comiseração inútil e ineficaz e, quando se consciencializar da origem do seu sofrimento e da ausência de medidas eficazes, aumentará a «campanha negra», a auto-vitimização dos governantes. Marcelo Caetano aguentou cinco anos e agora tudo evolui com muito mais rapidez. E não comecem a malhar nos militares pensando no que aconteceu no 25 de Abril, pois não há duas revoluções iguais. Nas Filipinas o Presidente Joseph Strada caiu sem violência pela pressão pacífica do povo. Oxalá não haja por cá tantos estragos inúteis como na Grécia, nem a violência ocorrida na Guiné. Mas os analistas e os pensadores devem esclarecer o Governo da necessidade de pensar mais no povo do que nos banqueiros e grandes senhores do capital.

Alguns títulos da Imprensa sobre o tema:

Cavaco Silva admite estar “preocupado e triste” com situação do país
Cavaco está "triste" com a situação que o país atravessa
Cavaco diz que combate à crise deve ser "causa nacional"
"Recebi indicadores sociais de alguma gravidade"

6 comentários:

Pata Negra disse...

Estou farto de presidentes! Já o Sampaio por tudo e por nada dizia:
- Estou muito preocupado!...
Não sabem dizer outra coisa? Já que não fazem nada ao menos que vão variando o discurso! Digam de quando em vez:
- O almoço caiu-me mal!
Está triste?! Eu nunca o vi alegre!
Um abraço pouco presidencial

A. João Soares disse...

Caro Pata Negra,
A falta de sinceridade é apanágio dos políticos. Sentem necessidade de falar mas não conseguem dizer nada de verdadeiro e útil. O País não precisa de palavras balofas, mas de ideias concretas e de acções, de construção de soluções simples e práticas e de supervisão dos sectores mais sugadores de energias que saem sempre dos bolsos dos mais necessitados.
Abraço
João Soares

Anónimo disse...

Menos palavras e mais acções. É só isso que é pedido aos políticos!

eurico disse...

Caro J. Soares
As preocupaçôes do PR são as mesmas de todos os Portugueses. O País precisa que o PR exerça a sua influência junto do governo para a adopção de medidas concretas que invertam a queda no abismo. Em situação de emergência há que, com humildade, congregar correntes politícas de todos os quadrantes e preparar um plano eficaz de ataque à crise. Serão necessárias convulsões sociais para o Poder tomar consciência das graves carências que enfrentam milhares de portugueses? Chega de paliativos
Um abraço
Eurico

A. João Soares disse...

Caro AP,
Concordo. Sem actos bem planeados e bem executados, não avançamos. E as palavras, embora necessárias, se não forem seguidas de acções, de pouco valem. Enquanto falam não produzem. Prefiro ouvi-los falar mais de inaugurações de obras do que de fantasiosas promessas, ou sonhos utópicos e prejudiciais à vida dos portugueses, como são os casos das obras faraónicas que hipotecam o Portugal das próximas gerações, como o TGV, o novo aeroporto, e auto-estradas que seriam desnecessárias se fossem feitos melhoramentos nas estradas nacionais, como a A8, quase sem trânsito.
Quanto mais falam sem nada ser feito, mais energias desperdiçam, e mais se desprestigiam à vista do novo que menos confiará neles.
Um abraço
João Soares

A. João Soares disse...

Caro Eurico,
«As preocupações do PR são as mesmas de todos os portugueses». Mas as suas responsabilidades são muito superiores às de qualquer português e deve estar consciente disso.
Não se prestigia quando se repete com palavras d simples comiseração que não são seguidas de acção. Algo está mão na organização do Estado português. No mínimo. pode chamar os partidos e sugerir-lhes, pedir-lhes, rogar-lhes que façam um CÓDIGO DE BOM GOVERNO que seria útil para qualquer governo de qualquer partido que venha a sumir funções.
Esta ideia foi abordada no post Reforma do regime é necessária e urgente. E se é indispensável Pensar antes de decidir, é imperioso agir e não ficar pelo pensamento e pelas palavras pias, mesmo que muito bem intencionadas.
Um abraço
A. João Soares