segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Obsessão da burocracia

Transcrição do Jornal de Notícias:

Notícias de Portugal
Por Manuel António Pina

Talvez a véspera de Natal justificasse uma crónica a tender para o adocicado e o banal, mas a banalidade no país do "choque tecnológico" é uma suinicultura ilegal em Alcácer do Sal (se calhar, nos cartazes turísticos, "Allcacer") com centenas de animais abandonados, morrendo à fome e à sede, cuja existência as autoridades conheciam há sete anos mas que nunca mandaram fechar porque, explica a veterinária municipal, "oficialmente nunca abriu".

Foi preciso um cidadão, alertado pelos gritos lancinantes dos animais em sofrimento, ter denunciado o caso à DGV para que a Câmara descobrisse "oficialmente" que a suinicultura existia, deparando-se, no local, com um inimaginável espectáculo de terror 50 porcos mortos e centena e meia de outros agonizantes alimentando-se dos cadáveres, em tal estado de depauperamento que tiveram que ser abatidos.

Enquanto a Lei 92/95, que proíbe a violência injustificada sobre animais, espera há 12 anos por regulamentação e os inspectores da ASAE andam pelas tascas a atacar empadas e pastéis de bacalhau, um suinicultor vivaço consegue, provavelmente a troco de umas costeletas, manter durante sete anos uma exploração ilegal e fazer negócio sem querer saber da lei nem da saúde pública.

É a "West Coast of Europe" no seu melhor.

NOTA: o respeito «religioso» pela burocracia constitui uma doença dos poderes autárquico e central e dos organismos deles dependentes. É a bengala de carreiristas, acomodados, resignados, conformados incompetentes, subservientes ou corruptos. Os problemas demoram a ser resolvidos. O desenvolvimento tarda. As boas decisões nunca chegam.
A veterinária disse tudo o que explica o fenómeno. Se a PJ também ignorasse a existência de crimes que «oficialmente não existem», a vida seria impossível!

3 comentários:

Alberto Cardoso disse...

É revoltante o que aqui é contado. Os pobres dos porcos passaram muito ao lado d´"AS NOVAS OPORTUNIDADES" tão apregoadas. Desejo que o dono da exploração (o explorador, portanto) sofra um brutal CHOQUE, tecnológico ou não, mas que o ponha à sombra por bons e largos tempos. O mesmo desejo para a besta que é paga para exercer as funções de veterinária municipal e cujo comportamento não consigo qualificar.
O Presidente em exercício da UE deve estar tão orgulhoso deste Portugal como está daquele que inventa soluções informáticas para possibilitar o alargamento a leste, já, do Espaço Schengen. Afinal estamos a falar do mesmo país! Do mesmo pobre país...

ANTONIO DELGADO disse...

Estimado A. João Soares,
Um horror isso que conta: Sem comentários! O amigo João Soares fala a "troco de umas costeletas" mas em Alcobaça em finais dos anos oitenta, havia um grupo de pessoas; um delegado de saúde, um desenhador que fazia projectos e uns engenheiros que os assinavam. Este grupo encheu Turquel e Benedita de suiniculturas com projectos financiados pela CEE. Esta espécie de rede submetia projectos à CCR. Vale do Tejo (parece-me que se define assim) e eram sempre aprovados. Segundo se comentava devido aos sinais exteriores de riqueza que todos passaram a exibir de forma instantânea (carros de luxo essencialmente), nunca houve sequer interesse em saber por parte das autoridades a razão do novo status quo. Hoje alguns deles deslocam-se em Jaguares, quando eram simples assalariados.

Segundo se comentava esta espécie de rede, estava ao que parecia, montada desde o interior da comissão Vale do Tejo e no próprio Ministério da Agricultura. Hoje em dia grande parte dessas pecuárias estão todas desactivadas porque serviram no seu tempo apenas certas pessoas receberem dinheiros através de projectos. A notícia de Alcácer não me choca assim tanto, devido a estes antecedentes, que além da questão económica, também teve factos parecidos. Em linguagem política corrente o que descreve de Alcácer do Sal talvez se designe por politicas nacionais de empreendorismo... Portugal no seu melhor!

Continuação de festas felizes.
António

A. João Soares disse...

Caros Alberto Cardoso e António Delgado,
Cumpriu-se mais um Natal, o mundo poderá estar melhor por ter pensado mais uma vez na mensagem do menino, mas Portugal, continua na mesma.
Os vossos comentários mostram a revolta de pessoas bem formadas perante a falta de estrutura moram da nossa máquina do Estado. Os «empresários» com a única preocupação de enriquecer de qualquer modo, roubam o máximo e corrompem os funcionários, todos ganhando, `a custa de falcatruas. Os funcionários (muitos mas não todos) fecham os olhos aos problemas difíceis e só actuam quando não pode deixar de ser. É simplex, com a fuga ao dificultex.
A veterinária só agiria se fosse obrigada a isso, o que demonstra a necessidade de o povo estar atento e «refilar» sonoramente sempre que julgar necessário, conforme diz o título do post «NADA MELHORA SEM MANIFESTAÇÕES».
O povo tem de pressionar os políticos e os seus servidores, com a pressão conveniente para actuem. Esta pressão tem sido quase inexistente e tem de tornar-se forte. Há no País quem saiba convencer ou...
Continuação das Boas Festas para vós e as vossas famílias e para todo o Portugal, de boa vontade.
Abraços fraternais
João