quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Velhos desprezados pelos governos

Transcrição de artigo do Expresso:

Este país não é para velhos
Expresso 101111. Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

Os ricos que espoliam o Estado ignoram estas existências. Nada lhes tira o sono.

Vi Mrs. Thatcher na televisão. 85 anos. Estava a chegar a casa depois de ter tido alta do hospital onde esteve internada. Bem vestida, bem penteada, Margaret Thatcher mal se equilibrava nas pernas; amparada por um homem e uma mulher, esboçou um sorriso alquebrado, um sorriso de quem não sabe muito bem o que está a acontecer, onde, quando, porquê. O sorriso de uma pessoa diminuída, doente. Apesar dos cuidados que recebe, e do cuidado posto naquela apresentação e imagem, a Dama de Ferro sofre de demência e sofreu vários AVC. Há quem diga que tem Alzheimer. Não interessa muito o que Mrs. Thatcher tem. Envelheceu. Envelheceu perdendo a força e a lucidez. Sem saúde e sem autonomia, mobiliza um batalhão de pessoas porque é um monumento nacional. E porque tem um passado e fortuna que lhe garantem uma velhice com dignidade e com assistência. Olhando os olhos parados vemos como a velhice é um estado de dureza e privação e como é preciso muita coragem para estar dentro da velhice sem precisar dos outros e de dinheiro.

Um velho pobre é uma abominação. É uma condenação à solidão, à doença, à miséria e à injustiça. Um velho pobre é invisível aos olhos ingratos da sociedade. Certa gente abandona os seus velhos à porta dos hospitais e parte para nunca mais voltar. Outra gente abandona-os num lar imundo e paga uma mensalidade para nunca mais os visitar. Conheci uma velha que há mais de 30 anos não via os filhos e os netos. Ninguém se ocupava dela e apesar disso conseguia gracejar sobre o seu estado e destituição.

Temos crueldades para com os velhos impensáveis em sociedades como a chinesa, onde se honram os antepassados, ou a árabe, onde os pais são cuidados pela família alargada. Portugal é um país cruel com os seus velhos, desleixa-os, abandona-os e esquece-os. O Estado tem, a seu modo, cumprido essa função de velar pelos cidadãos que não podem velar por si.

Este Orçamento do Estado é cruel para com os velhos e reformados, os das esqueléticas pensões, os destituídos. Os velhos com direito a um Complemento Solidário do Idoso, os que têm rendimentos até 5 mil euros por ano (como é que alguém vive com este dinheiro?) ou rendimentos conjugais de cerca de 8 mil euros, não têm direito a sigilo bancário e são inspecionados e fiscalizados. Os filhos são inspecionados. Os velhos pobres, que não têm conforto nem dignidade assegurados, há muito que prescindiram de muita coisa nas suas vidas. O seu cabaz de compras há muito foi diminuído.

Prescindiram de ter dentes ou tratamentos dentários. O cheque-dentista é impossível de obter e a maioria nem sabe que existe. Prescindiram de ver televisão por cabo, viveram quase a vida toda num mundo a preto e branco. Prescindiram de caminhar nas ruas da cidade porque nos socalcos e empedrados as quedas põem ser fatais. Prescindiram de comer fruta fresca, aguentando-se com a fruta sovada da mercearia ou com uma peça de fruta por semana. Prescindiram de comer peixe porque não têm dinheiro para a iguaria. O carapau e a cavala nem sempre aparecem ou têm distribuição nos bairros. Prescindiram do hipermercado porque não têm carro e fica longe. Prescindiram de tratar o reumatismo, a osteoporose, a hipertensão, a gota, o colesterol, a tiróide. Não têm dinheiro para a farmácia. Prescindiram do sono. Prescindiram de ir ao cinema porque é caro. Prescindiram de ir ao teatro porque é ainda mais caro. Prescindiram de fazer exercício físico porque o ginásio é um luxo de ricos, incluindo velhos ricos. Prescindiram da fisioterapia. Prescindiram das análises clínicas. Prescindiram do bife trocado pela carne de cozer. Prescindiram do cabeleireiro porque é um luxo. Prescindiram de ter um animal doméstico porque não têm dinheiro para o alimentar e vacinar. Prescindiram do café porque é uma despesa. Prescindiram de comer em restaurantes porque o gesto lhes consumiria a pensão. Prescindiram de visitar os amigos e parentes que estão longe porque não têm dinheiro para o transporte. Prescindiram de comprar óculos. Prescindiram de ler o jornal, tricotar, fazer croché. Prescindiram de viajar porque a única viagem que esperam será no caixão para o cemitério. Prescindiram de quase tudo o que traz um rasto de alegria e um módico de felicidade. Conversam uns com os outros num país de velhos.

Na solidão das casas e dos quartos, aguardam a chegada do inverno e do frio que lhes rói os ossos porque não têm dinheiro para as faturas da eletricidade. Alguns morrerão gelados ou da gripe. Prescindiram do banho quente. Quem não conhece estes velhos não conhece o pobre país que temos. Obrigá-los a pagar uma fatia, mínima que seja, do orçamento, é uma obscenidade. Fiscalizá-los também. Lá em cima, no assento etéreo, os ricos que espoliam o Estado ignoram estas existências. Nada lhes tira o sono.

Texto publicado na revista Única de 6 de Novembro de 2010

Imagem da Net

2 comentários:

Pedro Coimbra disse...

Tem uma prenda no Devaneios.
Um abraço

Maria Letra disse...

Dói-me sempre ler estas realidades, João Soares. Apesar de conhecê-las, dói muito, mesmo muito, cada vez que tocamos, nem que seja ao de leve nestas tristes verdades. Enquanto um governo, consente, sem intervir, este caos, é uma porcaria de governo. E não me pronuncio desta forma porque ..., para lá vou ..., mas sim porque a conheço há muitos anos, sem evolução, sem solução que encha de alegria esses corações que, tantas vezes, começam por serem abandonados pela própria família. Vis familiares! E não vale pensar que ... "para lá irão" e que "neste mundo tudo se paga". Paga um nada! Vejo muito sacana morrer feliz ...
Um bom domingo, amigo João Soares.