sábado, 5 de setembro de 2009

O importante no caso da TVI

Transcrição do artigo de igual título do DN de João Marcelino ao qual junto no final uma pequena nota.

1. Quando, há uns anos, a Prisa decidiu comprar a TVI a Paes do Amaral, eu entendi, e escrevi, que isso não era bom para os interesses nacionais. O Governo deve ter achado o contrário, ou pelo menos não se incomodou. Sócrates recebeu Cebrián e Polanco. Pina Moura apareceu a presidir à Media Capital reconhecendo ao Expresso que o convite tinha "um pressuposto ideológico". Estávamos no tempo em que José Eduardo Moniz não duvidava em socializar em São Bento com o primeiro-ministro e o "cardeal" (a alcunha que Pina Moura ganhou pela influência que teve no Governo de António Guterres). Estava tudo bem. Negociava-se o aparecimento de outro canal, entretanto congelado pela crise. O País vivia em liberdade. Nem a TVI era um perigoso órgão subversivo nem Sócrates a cabeça do "polvo" que agora atormenta Moniz. Pina Moura também não andava desnorteado ao ponto de dar entrevistas polémicas a reconhecer que o programa eleitoral do PSD "é clarificador", "divisor de águas" e "mais duro e mais focado" do que o do PS.

Sobretudo, ainda não havia "aquele" Jornal Nacional.

2. A minha preocupação neste caso nunca andou a reboque da conjuntura, nem de programas específicos em antena. Tinha, e tem, a ver com o facto de acreditar que o Poder não analisou com profundidade o interesse nacional. Da acção de todos os governos desde o 25 de Abril, do PS e/ou do PSD, sei o suficiente para não aceitar o argumento hipócrita de que estamos numa economia aberta ou explicações sobre o que é uma interferência.

O ponto é este: um poderoso grupo económico estrangeiro avançou para a compra do canal de televisão com maior audiência no País e o Governo quis-nos fazer acreditar que entendia que se tratava de uma simples operação económica, sujeita às leis do mercado, e que não havia lugar a complexos proteccionistas nem a pesar necessidades estratégicas.

Desconheço, claro, se houve, ou não, cálculo político. Mas os factos concretos são também os seguintes: em Portugal e Espanha o Governo era, e é, socialista - e a Prisa era, que já não é, a mão de Zapatero na comunicação social.

3. Em Espanha muito mudou desde então. Cebrián incompatibilizou-se com Zapatero. Por um capricho do mercado, veja-se a coincidência, surgiu um outro grupo de media socialista que canibalizou os interesses da Prisa. Em crise profunda, o grupo espanhol até se deve ter sentido prejudicado com o negócio que recentemente deixou de fazer com a PT, vetado pelo Governo face às dúvidas da oposição.

Todos estes dados devem servir de aviso. Num país há sectores estratégicos. Os negócios de ocasião, ditados por interesses conjunturais de família ideológica, podem não valer um programa de Manuela Moura Guedes.

Do ponto de vista jornalístico e deontológico já escrevi aqui sobre o Jornal Nacional da TVI que havia às sextas-feiras. Não gosto das circunstâncias que rodeiam o seu desaparecimento. Fico desconfiado. Mas não lamento a saída de antena daquele programa pseudo-informativo. Deixo esse exclusivo à hipocrisia de uma grande parte da corporação e à necessidade dos políticos em campanha.

NOTA: O caso TVI, de repente (era previsível!), substituiu os amores de Ronaldo, com muito papel coberto de tinta, mas poucas pessoas se debruçam sobre os aspectos mais salientes do caso. João Marcelino coloca o dedo na ferida, parecendo sintonizado com as ideias que aqui têm sido repetidamente referidas: «Num país há sectores estratégicos»«o Poder não analisou com profundidade o interesse nacional». Estas pérolas do artigo representam a maior fragilidade dos governos das última três décadas: Raramente as decisões evidenciam sentido de Estado, prioridade dada ao essencial em desfavor do marginal e efémero e visão estratégica com fito no futuro e nas gerações seguintes.
Perdem tempo e energia a discutir banalidades, com a finalidade de melhorar o posicionamento para as eleições, e para colher mais benefícios pessoais, do partido, de familiares e amigos. Embora, por vezes, pareça surgirem ideias positivas para Portugal, logo estas são colocadas de lado por não serem favoráveis a tais interesses. Isto tem sido bem visível.

3 comentários:

Luis disse...

Amigo João,
Neste como noutros casos começa-se a ver quem manda em Portugal! Há que mandar pela "borda fora" todos os "condes de andeiro" que por aí proliferam! É o caso da TVI, o do TGV e tantos outros que desconhecemos que nos levam a pensar que os "xuchas" ibéricos se coligaram para dominarem a península! Valham-nos Afonso Henriques e Camões lá onde estiverem!
ALERTA SEMPRE E CADA VEZ MAIS!

Horácio Barata disse...

Portugueses acordem! Agora estalou a polémica sobre se vai haver TGV ou não para distrair os Portugueses do desastre de 4 anos de (des)governação! Não se fala da corrupçao generalizada que assola o País, da insegurança em que vivemos,do pilar fundamental de qualquer estado de direito que é a justiça que não temos, em suma fala-se de TGV's e quejandos e não falam dos verdadeiros problemas que afectam os Portugueses como o desemprego, a fome e a miséria que aflige tanta gente.

A. João Soares disse...

Caros Luís e Horácio Barata,

A incapacidade dos nossos políticos para olharem a fundo para os problemas portugueses fica cada vez mais visível.
E como não têm capacidade para resolver tais magnos problemas e como só vêm a política como um teatro de luta de palavras entretêm-se com a peça do arlequim e da manjerona. E o povo bacoco, toma partido nestas politiquice não por pensar no que se passa, mas segundo uma posição tomada por arrastamento ao longo do tempo sem reflexão sobre programas capacidades e competências.
As listas que nos propõem para nós votarmos são baseadas em conluios de falta de ética em que constam arguidos e outros suspeitos públicos, pessoas que não merecem a mínima confiança para lhes delegarmos pelo voto os poderes para gerirem os assuntos nacionais. Ora, o voto, tal como uma procuração com todos os poderes não deve ser entregue a quem não nos mereça confiança.

Abraços
João