quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Políticos ou gestores

Transcrição de artigo que estimula o raciocínio acerca da eventualidade de mudanças no regime, das capacidades exigíveis a um gestor político e da consequente conveniência de os partidos formarem devidamente os gestores políticos, para o bom desempenho das funções de maior responsabilidade.

Políticos ou gestores
Diário de Notícias. 16 Dezembro 2011. por JOSÉ CARLOS GONÇALVES VIANA, ENGENHEIRO

A indigitação recentemente verificada de gestores, aparentemente sem currículo político mas excelente currículo profissional, para cargos políticos da maior importância levantou um coro de comentários, porque parece haver dúvidas quanto à eficiência de um gestor de origem empresarial ou semelhante no desempenho de tais funções políticas.

O contrário, isto é, a passagem dum cargo político para um empresarial, já não levanta tais dúvidas, mas, se por vezes, isso acontece de forma a originar notícias nos jornais, normalmente apenas houve influência de decisões tomadas pelo visado no primeiro cargo que teriam favorecido alguns interesses da empresa para onde transitou, não se pondo a questão da eficiência.

O que interessa na resposta à questão posta em título deste escrito é esclarecer o que de facto influencia a eficiência da gestão por quem ocupa os lugares cimeiros de qualquer organização, seja ela uma empresa ou um país.
A definição mais simples de gestão eficiente a enunciar é: o conjunto de princípios e procedimentos que maximizem os resultados a atingir, utilizando uma equipa competente e todos os meios ao seu dispor no mercado em que a entidade a gerir está inserida.

Estes princípios essenciais da eficiência são os seguintes:
1.º - distinguir o fundamental do acessório;
2.º - o primeiro factor é o pessoal (as pessoas de dentro e de fora);
3.º - haver sempre responsáveis;
4.º - tomar decisões efectivas e oportunas;
5.º - basear-se nos pontos fortes e não nos fracos;
6.º - libertar-se de preconceitos e ideias feitas;
7.º - apontar para os resultados mais do que para o trabalho.

Estes princípios adicionados às capacidades humanas e técnicas e à experiência em lugares de chefia e/ou ao treino em gestão, como é normal nos cursos específicos, devem ficar em equilíbrio com as características do cargo, a que se chama a posição estratégica, e que são: dependência hierárquica, poderes de decisão e informação recebida. A esta relação dá-se o nome de competência.

O primeiro factor de sucesso é a qualidade de liderança do responsável por essa equipa, e, portanto, pela sua competência, e a responsabilidade da sua escolha pertence a quem detém o poder de o indigitar. Se for uma empresa, será a assembleia geral, ou seja, os sócios que têm a maioria do capital; se for um país, será o partido, ou a coligação de partidos que obtiver a maioria em eleições a isso destinadas.

A escolha dos candidatos a estes cargos obedece a critérios vários, alguns subjectivos e outros objectivos, entre os quais as qualidades pessoais dos candidatos, entre elas as provas dadas anteriormente, como sejam: os resultados obtidos, a capacidade de trabalho, a capacidade de liderar, a empatia e outras características pessoais e, finalmente, as capacidades técnicas mínimas para poder liderar toda a equipa, que se nas empresas já abrange vasta área, num país abrange todas a áreas de conhecimentos e de actividades.

Mas, perdoem-me a insistência, o mais importante é o seu comportamento ser orientado pelos princípios acima indicados.
A maioria, para não dizer todos, dos desvios verificados no nosso país que o conduziram à situação actual foram consequência do atropelo frequente de alguns ou até de todos eles.

Já Camões dizia "um fraco rei faz fraca a forte gente" e Damião de Góis "mais vale um exército de ovelhas comandado por um leão que um exército de leões comandado por uma ovelha".

Por outro lado, a actividade de gestão começa com a definição de objectivos e dos meios para os atingir, cujo plano de acção faz parte das condições postas à partida quando da indigitação.
No caso de um país, deverá ser definido durante o período eleitoral, aliás como acontece nas empresas, o que implica ter de haver depois um órgão que permita controlar a evolução durante todo o mandato de forma a evitar desvios, por ineficiência ou por fraude.

Tudo isto porque existe uma base democrática nestas relações de trabalho e de influências, pois em ditaduras nada disto acontece assim, e por isso mesmo justifica-se nestes casos as demonstrações de protesto nas ruas, que em democracia significam a falta de eficiência das chefias dos partidos políticos, que tem conduzido à enorme abstenção e à adopção generalizada dos movimentos de protesto popular, como única solução para a população se manifestar.

Porque se os partidos políticos fossem representativos de facto de toda a população, o resultado das eleições bastaria para satisfazer a sua necessidade e interesse na solução dos problemas e em atingir os objectivos correspondentes às promessas eleitorais que ganharam as eleições.

Como melhorar esta situação, que obviamente representa uma eficiência de governação fatalmente mais baixa do que seria desejável? E como controlar o trabalho de gestão dos eleitos?

Nas empresas privadas, motivam-se os gestores (e seria excelente incluir também todos os colaboradores ) com ganhos proporcionais aos resultados obtidos, e no Estado deveria haver igualmente uma avaliação que premiasse (ou punisse) anualmente e no fim do mandato conforme os resultados atingidos.

Quanto ao controle, da mesma forma que nas empresas há o conselho fiscal, no Estado já existe o Tribunal de Contas, que deveria ter essa função talvez mais alargada e eleita sempre pelos partidos da oposição. Tal como o provedor e qualquer órgão de controle, pois só assim nunca dependerão do poder para a controlar, única forma de garantir a sua independência.

E como a Constituição não prevê este sistema, só resta alterá-la em conformidade, mas por uma equipa onde haja alguém que tenha conhecimentos sólidos de gestão e não apenas juristas.

Conclusão final: em teoria, não há razão alguma para preferir candidatos exteriores aos partidos, excepto se estes estiverem tão desacreditados que já não conseguem apresentar candidatos aceitáveis.

Moral da história: para o sistema democrático ser capaz de gerar candidatos eficientes e, portanto, credíveis, os partidos têm de rever rapidamente as suas formas de gestão interna tal como as empresas e os países que quiserem sobreviver e progredir.

Imagem de arquivo

2 comentários:

Luís Coelho disse...

Isso é que era serviço bem feito.
Não sei se ainda vão a tempo ou se ainda resta algum político com dignidade e isenção, com moralidade e respeito pelo seu país e os seus habitantes.

Chegaram ao cúmulo da indecência. São uma cambada de mentirosos, escroques e malfeitores que vivem da pilhagem e da destruição.....

A. João Soares disse...

Caro Luís Coelho,

Não gosto de usar palavras tão duras como as suas, mas tenho de concordar que os políticos, salvo eventuais excepções, são merecedores de tais adjectivos.

E não são apenas os cidadãos vítimas dos abusos do poder a ver tais dislates, pois, como pode ver no post Parlamento é..., Paulo Morais, vice-presidente da organização Transparência e Integridade, afirmou que o Parlamento "é um escritório de representações" e acrescentou

«A Assembleia da República "abastardou-se" e a presidente do Parlamento "tem a obrigação de tomar uma atitude, em nome dos princípios éticos".

Mas os factos reais não devem espantar, pois a carreira que os leva ao poder não auspicia bons resultados.
Salvo eventuais excepções, o currículo da carreira política é: jota - assessor - vereador ou deputado - secretário de Estado - ministro, etc, à margem de preparação académica adequada, embora, depois de obterem poder de influência, consigam títulos «à la minute».

Daqui não se pode esperar muito até porque a inscrição na Jota é a solução para maus estudantes que, de outra forma, não teriam perspectivas de futuro.

Repito que pode haver eventuais excepções.

Um abraço
João