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domingo, 3 de maio de 2020

JÁ NÃO SE PEDEM MILAGRES

Já não se pedem milagres
(Public em O DIABO nº 2261 de 01-05-2020, pág 16)

Depois de ler o artigo “Ainda haverá fé sobre a terra?”, n’O DIABO nº 2259, de 17-04-2020, procurei um apontamento esboçado há algum tempo e apresento-o aos leitores depois de lhe acrescentar algumas considerações complementares. Não devemos estar à espera de milagres.

A Humanidade é composta de todos os seres humanos. E é imperioso que haja ética, moral, respeito pelo próximo e pela natureza, e que seja generalizada a instrução para que cada um saiba desempenhar o seu papel de forma a agir em conformidade com esta ideologia. As religiões foram criadas por pessoas eticamente bem formadas, autênticos filósofos ou sábios, quando ainda não havia ciência e saber que ajudasse a compreender a Natureza em que se vivia. O politeísmo foi uma solução para dar resposta aos curiosos sobre os fenómenos que observavam: Sol, Lua, Vento, etc. e foram criados inúmeros Deuses, um para cada fenómeno que ainda não tinha explicação por ainda não haver ciência devidamente desenvolvida e acessível às pessoas vulgares.

O tempo foi passando e a sociedade modificou-se. Surgiram diversos polos de atracção quer de aspectos políticos, quer desportivos, quer económicos, quer tecnológicos que desviam as pessoas da fé religiosa, sem que esta fosse substituída. Por exemplo, a política tem levado as pessoas a concluir que nada é seguro e não podemos acreditar em nada nem em ninguém, mesmo na escrita que, até alguns anos atrás, era segura e garantida, hoje nada vale nem significa porque aquilo que se apresenta como afirmação indiscutível da obra que veremos amanhã, é negada poucas horas depois.

Uma das invenções mais dramáticas foi o dinheiro, que foi criado como necessário para facilitar as compras, substituindo as trocas, mas tornou-se na pior droga que existe e que é mais perigosa que qualquer outra, porque não tem o perigo de overdose, o que origina ambição, ganância, roubo, corrupção, sem respeito por nada nem por ninguém, tudo sem limites.

A religião, embora muito tenha resistido, não podia escapar à onda de cepticismo e, muitas vezes, não passa de ilusão, panaceia. Há dias, numa conversa em que havia um beato fanático, perguntei-lhe quais são as quatro lições que devem ser extraídas da segunda parte da oração “Pai Nosso”. Tal como milhares de “crentes”, que papagueiam as orações sem compreenderem o significado das palavras que dizem, ele sabia dizer a oração mas não via ali senão pedidos ao Pai. Ora o Pai, amantíssimo e justo, não faz favores a quem se comporta mal, a quem faz asneiras, não premeia quem peca, embora perdoe. A oração, nas palavras “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, pede a Deus ajuda espiritual, saber, moral, para não sermos ambiciosos, gananciosos e contentarmo-nos com o necessário para viver; nas palavras “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” ensinam que devemos perdoar as ofensas dos outros para sermos perdoados das nossas desobediências às lições que recebemos de Deus, perdoando os erros dos outros para podermos ser perdoados dos nossos; as palavras “não nos deixeis cair em tentação” significam que devemos ter bom comportamento e usar de moral para não cometermos erros de ambição, de inveja, de ódio, de violência, de droga, etc. de que resulte mal para nós ou para outros. Enfim, devemos ser cuidadosos, bem comportados, prevenidos, para nos “livrarmos do mal”, das doenças, dos acidentes, etc. É pena que muita gente papagueie as palavras das orações sem tirar delas as lições pretendidas pelo Mestre.

E estas considerações também mostram que a acção de formação e educação por parte de sacerdotes é deficiente quanto ao desenvolvimento da fé, bem fundamentada e praticada pelos crentes. As festividades tradicionais não são suficientes para o reforço da fé, como bem explica o autor (Águia da Beira) no artigo atrás referido. A fé, a esperança e o optimismo, próprio da consciência limpa, geram felicidade. ■

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terça-feira, 6 de junho de 2017

ECOLOGIA, AMBIENTE E RELIGIÃO


Ecologia, ambiente e religião
(Publicado em O DIABO em 6 de Junho de 2017)


De manhã fui num grupo à cidade próxima, onde uns aproveitaram para fazer compras e utilizei para tratar da actualização da morada no cartão de cidadão. Depois tirei algumas fotografias e visitei duas igrejas situadas nas proximidades do local de reencontro para o regresso.

De tarde, participei numa «excursão» para ver a procissão da quinta-feira da Ascensão, dia da espiga, que saiu e entrou na ermida da Nossa Senhora dos Milagres, situada num monte sobranceiro ao lugar de Milheiros da Freguesia de Dois-Portos. Vários aspectos me impressionaram e incitaram a meditar e a referir neste espaço.

A ermida, erigida no século XVI localiza-se no «vértice» de uma pirâmide ou cone, levando a nossa vista a muitos Km de distância independentemente do azimute para que estejamos virados. Só isto já merecia a viagem. Mas o interior da ermida possui revestimento de azulejos de reconhecido valor artístico e bem conservados, bem como as pinturas do tecto e a capela-mor, o que demonstra uma arreigada e continuada devoção da população local e da região.

O que mais me impressionou, foi a intenção da procissão, constituída principalmente por mulheres, a maior parte de idade madura, que percorreu por caminhos pedestres rurais os campos bem visíveis lá do alto em que durante uma paragem junto à fonte que, segundo a lenda, está ligada à decisão de construir ali a ermida, o pároco prestou a sua homenagem e aspergiu água benta em direcção não apenas à fonte e às pessoas que integravam a cerimónia, mas também aos campos em geral. Gesto ecológico, de amor à Natureza, que é mãe de todas as vidas animal e vegetal.

Fiquei sensibilizado por esta homenagem à Natureza e saltou-me à memória a interrogação do Papa Francisco, durante a homilia em Fátima, se as pessoas estavam ali reunidas para agradecer e pedir pequenos favores para lhes retirar sofrimentos pontuais ou se era para manifestar respeito e homenagem e agradecer os bons conselhos e sugestões para viverem com mais civismo, bom entendimento e amizade para com os seus semelhantes.

Nunca é demais desenvolver a ética, reforçando o respeito pelos outros, sejam humanos, animais, vegetais ou minerais, isto é a Natureza em que fomos gerados e de que vivemos. Nisso se devem basear as religiões, procurando aperfeiçoar os sentimentos, as emoções, as palavras e as acções de todos e de cada racional. Infelizmente tem havido excepções de movimentos ditos religiosos, que perderam o rumo avançam nas piores direções.

Espero que não deem por mal empregue o tempo gasto nesta leitura, mas não resisti ao apelo íntimo de partilhar esta meditação que desejo contribua para melhorar a postura perante o tema.

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Todos os deuses são verdadeiros

Transcrição de artigo de opinião:

Nenhum deus é falso
Jornal de Notícias. 22-08-2011. 01h51m. Por A. Marinho Pinto

Os acontecimentos ocorridos na capital de Espanha a propósito da visita do Papa Bento XVI, com manifestações contra e a favor da realização de um encontro mundial de jovens católicos, recordam-me os fantasmas das velhas lutas entre a Espanha clerical e a anticlerical.

No actual contexto político e económico, recordam-me também (não sei porquê) a divisão entre a Europa da Reforma e a da Contra Reforma; entre a Europa da crise que (só) atinge os países católicos (Irlanda, Portugal, Grécia, Espanha e Itália) e a Europa protestante, endinheirada e do panmercantilismo.

Recordam-me, por fim (ainda sem saber bem porquê), as divisões dentro da própria Igreja Católica, entre uma igreja de proibições, fechada nos seus dogmas milenares e aqueloutra de libertação e aberta ao Homem, à sociedade e à modernidade. Entre a Igreja vaticanista, do poder, da ostentação e da soberba e uma outra de amor ao próximo, voltada para os problemas do ser humano, para as suas angústias e necessidades concretas e solidária com as lutas pela dignidade humana. Recordam-me a igreja herdeira da Inquisição, de perseguidores, dos Bórgias e de patriarcas que degrada a mulher na sua condição humana e a igreja dos perseguidos que desperta e fecunda algumas das aspirações mais elevadas do ser humano, herdeira de António Vieira e Bartolomeu de Las Casas. Há, de facto, uma igreja que degrada e outra que dignifica a pessoa humana; há, em suma, uma igreja que escraviza e outra que liberta.

A Igreja Católica tem, como qualquer confissão religiosa, direito às suas realizações, sejam actos de culto, sejam apenas manifestações que mostrem o seu poder de mobilização social. Todo o crente tem, obviamente, direito de dar testemunho da sua fé, de exprimir livremente aquilo em que acredita, mas, em público, deve fazê-lo com moderação e respeito pelas convicções de outros crentes ou de não crentes.

A Igreja ocupa como nenhuma outra instituição o espaço do debate público com as suas realizações, as suas propostas, os seus dogmas e as suas verdades. E quem ocupa o espaço do debate público tem de aceitar as críticas que essa exposição suscita. Quem se manifesta em público tem de aceitar contramanifestações desde que umas e outras sejam pacíficas.

A hierarquia da Igreja Católica assume posturas rigidamente vinculantes sobre questões controversas da actualidade que dizem respeito a toda a sociedade e não apenas aos católicos. Ela discrimina as mulheres, condena o uso do preservativo, proíbe o aborto, combate a investigação genética, opõe-se ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, tal como outrora fora contra o uso da pílula e até contra a vacinação.

Por outro lado, a aproximação demasiada entre a Igreja e o Estado gera anticlericalismo na sociedade o qual radicaliza o clericalismo. O passado demonstra que ambos se alimentam um do outro numa espiral irracional de fanatismo.

Por mim, há muito que aprendi as virtudes da tolerância e do respeito pelos crentes de todas as religiões. Tenho por um católico o mesmo respeito que por qualquer outro cristão, seja ele qual for, que é, aliás, o mesmo que nutro por um judeu ou por um muçulmano. E o respeito que tenho pelos fiéis de uma religião monoteísta ou revelada é igual ao que sinto por qualquer outro crente de outra qualquer religião desde as mais primitivas às mais sofisticadas da actualidade.

A História demonstra-nos que o homem é capaz dos piores crimes e dos mais elevados actos de generosidade e de solidariedade; e mostra-nos também que, muitas vezes, os melhores homens são capazes das piores atrocidades desde que tenham uma boa causa para isso. E não há melhor causa do que a glorificação de um Deus verdadeiro ou a exaltação de um ideal de libertação. Só as grandes causas podem fanatizar o ser humano. Alguns dos crimes mais hediondos da história da humanidade foram praticados em nome de religiões de amor ao próximo e algumas das piores formas de servidão foram justificadas por ideologias de libertação.

Na humildade do meu ateísmo descobri, há muito, que todos os deuses são verdadeiros.

Imagem do Google

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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Obama e o Irão

Obama enfrenta um desaire iraniano

“Manifestamente, Londres está ansiosa por sair de cena o mais rapidamente possível, e espera que tudo possa voltar ao que era antes com o Irão. Obama tem pela frente um desafio muito mais complexo. Não pode imolar Brown e tem de se aproximar do Irão. O desafio que está diante de Obama não é apenas o regime iraniano não ter vergado, mas o facto de ele ter mostrado uma incrível resistência”.
M K Bhadrakumar* - 06.07.09

Agora, Twitter já pode voltar ao seu plano de suspensão dos seus serviços no Irão e entrar em manutenção. Twitter entra em recessão, satisfeito por ter, provavelmente, envergonhado uma potência regional ressurgente. O governo dos EUA deve um enorme favor a Twitter por ter feito algo onde, nas últimas três décadas, todos os seus restantes estratagemas de guerra e paz fracassaram.

No entanto, as histórias persas têm finais muito compridos. O regime iraniano apresenta todos os sinais de estar a cerrar fileiras e a organizar-se perante o que classificou como uma ameaça existencial ao sistema Vilayat-e faqih (governo do clero). Inclusivamente, se os EUA e a Grã-Bretanha quiserem desistir da sua desagradável altercação com Teerão, o que seria muito sensato e lógico, pode ser que este último não o consinta.

O Supremo Líder, o Ayatola Ali Kamenei, utilizou uma significativa expressão persa para caracterizar os funcionários europeus e estadunidenses, e sublinhou que o chão sobre o qual se pára «suja-se». Inevitavelmente deixou claro que Teerão não esquecerá facilmente as mentiras em catadupa que os EUA, e particularmente a Grã-Bretanha, lançaram nas últimas semanas para manchar o seu crescente prestígio regional. Numa advertência velada, Kamenei afirmou: «Alguns responsáveis europeus e estadunidenses, com as suas observações idiotas sobre o Irão, falam como se os seus próprios problemas (leia-se Iraque e Afeganistão) estivessem todos resolvidos e como se não houvesse outros assuntos para além do Irão».

O Irão teve uma história tortuosa, sobrecarregada com o que o presidente Barack Obama dos EUA lembrou no seu discurso do Cairo: «a tensão foi alimentada pelo colonialismo que negou direitos e oportunidades a muitos muçulmanos, e uma Guerra-Fria em que, amiúde, se utilizavam os países de maioria muçulmana como peões, sem ter em conta as suas próprias aspirações». Ao longo das últimas três décadas, a «linha vermelha» para Teerão foi sempre uma tentativa estrangeira de impor uma mudança de regime. Essa linha foi agora violada.

O establishment iraniano da segurança começou a aprofundar cada vez mais o que na realidade sucedeu.

Gholam Hussein Mohseni Ejehei, o poderoso ministro da inteligência, afirmou que, com base nos dados existentes, houve uma tentativa concertada de incitar os distúrbios por parte de potências mundiais, «incomodadas por um Irão estável e seguro», e conspirações para assassinar dirigentes iranianos.

As afirmações não corroboradas não colhem. Mas nos próximos dias e semanas irão surgir perguntas pouco confortáveis. Há dúvidas sobre a misteriosa morte de Neda Aqa-Soltan. Novamente, nos mortos incluíam-se oito bem treinados milicianos Basiji. Quem os matou? E certamente, quem dirigiu a carga da brigada ligeira?

É uma parte pouco conhecida da história na contagem regressiva até ao golpe anglo-estadunidense em Teerão, em 1953, contra Mohamed Mossadegue, que foi a Agência Central de Inteligência (CIA) quem perdeu o valor do que é justo quando estavam a ser montadas protestos de rua em Teerão – misteriosamente semelhantes aos recentes distúrbios – e foi o posto avançado da inteligência britânica em Chipre, quem coordenou toda a operação, manteve-se firmemente, forçou o ritmo e terminou por criar um facto consumado para Washington.

Em todo o caso, Teerão não larga a Grã-Bretanha – «a mais traiçoeira das potências estrangeiras», para usar as palavras de Kamenei. Dois diplomatas acreditados em Teerão foram expulsos, e quatro empregados iranianos da embaixada britânica continuam detidos para interrogatórios. Tudo isto, apesar das enérgicas declarações de Londres que não intensificou nada nas ruas de Teerão. Uma declaração do Foreign Office em Londres alegou que o que incentiva o primeiro-ministro Gorden Brown é programa nuclear do Irão, e não a sua indignação pelos direitos cívicos ou a morte de inocentes.

Manifestamente, Londres está ansiosa por sair de cena o mais rapidamente possível, e espera que tudo possa voltar ao que era antes com o Irão. Obama tem pela frente um desafio muito mais complexo. Não pode imolar Brown e tem de se aproximar do Irão. O desafio que está diante de Obama não é apenas o regime iraniano não ter vergado, mas o facto de ele ter mostrado uma incrível resistência.

O regime cerra fileiras

Corria o boato que o desconcertante silêncio do ex-presidente Akbar Hashemi Ransajani se devia ao facto de ele estar a conspirar na cidade sagrada de Qom e a questionar o mandato de Kamenei. Não é verdade. Domingo, Rafsanjani tornou pública uma declaração de apoio a Kamenei, ond se nota a inconfundível forma de entendimento:

«Os acontecimentos que ocorreram depois da eleição presidencial foram uma complexa conspiração tramada por elementos suspeitos, com o objectivo de criar uma ruptura entre o povo e os establishment islâmico e levá-lo a perder a sua confiança no sistema [Vilayat-e faqih]. Tais confabulações foram sempre neutralizadas quando o povo vigilante entrou em cena», disse Rafsanjani.

Elogiou Kamenei por alargar a acção do Conselho de Guardiães ao ampliar o prazo durante cinco dias para estudar os temas relacionados com a eleição e eliminar ambiguidades: «Esta valiosa acção do líder para restaurar a confiança das pessoas no processo eleitoral foi real», sublinhou Rafsanjani. Numa reunião aparte, na passada quinta-feira, com uma delegação de membros do Majlis (Parlamento), Rafsanjani disse que o seu afecto a Kamenei é «infinito», que goza de uma estreita ligação com o Supremo Líder e que cumpre plenamente com o Velayat-e faqih.

Sábado, o Conselho de Conveniência, dirigido por Rafsanjani, apelou aos candidatos derrotados a que «respeitassem a lei e que resolvessem os conflitos e as disputas através dos canais legais». Entretanto, quer Moshen Rezai, candidato da oposição e ex-chefe do Corpo de Guardas da Revolucionários Iranianos, quer o ex-presidente do Majlis, Nateq Nouri, o principal pilar da política iraniana, também se reconciliaram.

A realidade é que Mir Hussein Mousavi está isolado. Fazendo orelhas moucas aos reparos de Mousavi, o Conselho de Guardiães ordenou uma recontagem parcial de 10% das urnas de voto, escolhidas aleatoriamente em todo o país, perante as câmaras da televisão estatal. A recontagem confirmou, segunda-feira à tarde, o resultado de 12 de Junho e informou o Ministério do Interior que «o Conselho de Guardiães, depois de examinar os problemas, rejeita todas as queixas recebidas, e aprova a correcção da 10ª eleição presidencial».

A recontagem de 2ª feira mostrou um ligeiro aumento dos votos do presidente Ahmadinejad na província de Kerman. A Mousavi, agora, resta-lhe a pouco segura opção de recorrer à «desobediência civil», mas não o fará – para consternação de comentaristas ocidentais a quem, ao que parece, ele impressionou como o «Gandhi do Irão».

Se o vaticínio era que o presidente do Majlis, Ali Larijani, parecia prometedor como potencial líder dissidente, também prognóstico foi desacreditado. Segunda-feira, quando se dirigia à reunião do comité executivo da Organização da Conferência Islâmica, em Argel, Larijani atacou a política dos EUA por «interferir» nos assuntos internos dos países do Médio Oriente. Aconselhou Obama a abandonar esta política: «essa mudança será benéfica tanto para a região como para os próprios Estados Unidos».

O governo de Obama tem de tomar algumas decisões difíceis. Obama foi obrigado a endurecer a sua posição pelas críticas permanentes e pela pressão montada por redes anti-iranianas e poderosos lobbys ocultos no Congresso dos EUA e na classe política – aparte os círculos do establishment da segurança, que tem contas velhas a saldar com o Teerão mas têm um abominável historial de erradas interpretação das vicissitudes da política iraniana.

A mudança dessa posição monolítica será um processo difícil e politicamente embaraçoso. Ela requer uma enorme habilidade como estadista. O melhor resultado será Washington fazer uma pausa e renovar os seus esforços de aproximação ao Irão, depois de um intervalo decente.

Parece pouco provável que nas próximas semanas tenha lugar um diálogo significativo. Entretanto, mesquinhices como a recusa de visto para a visita a Nova Iorque do vice-presidente iraniano Parviz Davoudi a fim de participar na Conferência das Nações Unidas sobre a crise económica mundial não ajudam até porque Davoudi é um defensor de perspectivas económicas liberais. Também não ajudará a provável decisão dos EUA de continuar pelo caminho das sanções contra o Irão na próxima reunião do G8, em Trieste, Itália, de 8 a 10 de Julho. Em Maio, o Irão ultrapassou a Arábia Saudita como maior exportador de petróleo do Golfo Pérsico.

Em suma, o governo de Obama andou às cegas, depois de um magnífico começo ao encarar frontalmente a situação das relações com o Irão. Como argumenta o conhecido político e comentarista Leslie H Gelb no seu novo livro: «Power Rules: How Common Sense Can RescueAmerican Foreign Policy», Obama tinha uma opção: «utilizar o modelo líbio, através do qual Washington e Tripoli puseram as cartas na mesa e trocaram-nas de forma muito satisfatória».

O Irão fará represálias

O ambiente regional também só pode dar vantagens ao Irão. O Iraque continua num equilíbrio perigoso. O destino dos EUA no Afeganistão vai de uma provável derrota a como evitar uma derrota. A Turquia distanciou-se da posição europeia sobre os recentes acontecimentos no Irão. O Azerbeijão, o Turquemenistão, o Afeganistão e o Paquistão saudaram a vitória de Ahmadinejad. Moscovo acabou por concluir que o regime não estava ameaçado.

A China emerge como «ganhador» absoluto ao avaliar correctamente, desde o primeiro dia, as correntes subjacentes da política revolucionária do Irão. Pequim nunca antes tinha expressado tão abertamente uma inquebrantável solidariedade com o regime iraniano, rejeitando as pressões ocidentais. Nem a Síria, nem o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza mostraram qualquer inclinação para se afastarem do Irão.

É verdade que os vínculos da Síria com a Arábia Saudita melhoraram nos últimos seis meses e Damasco saúda as recentes tentativas de aproximação do governo de Obama. Mas longe de adoptar a agenda saudita ou estadunidense para com Teerão, o ministro dos Estrangeiros sírio, Walid al-Moallem, questionou a legitimidade dos protestos de rua em Teerão.

E advertiu quando as ruas de Teerão presenciavam os distúrbios: «Quem apostar na queda do regime iraniano será um perdedor. A revolução islâmica [de 1979] é uma realidade profundamente arreigada no Irão», e a comunidade internacional [leia-se EUA] deve conviver com essa realidade. Do mesmo modo, o êxito de Saad Hariri como recém primeiro-ministro do Líbano – e a estabilidade geral do país – dependerá da sua reconciliação com os rivais aliados da Síria e do Irão.

Tendo em conta todas as circunstâncias, houve uma crise política em Washington. O paradoxo é que o governo de Obama negociará agora com um Kamenei que está no auge do seu poder político das suas duas décadas como supremo líder. Quanto a Ahmadinejad, agora negociará a partir de uma posição de força sem precedentes.

Ahmadinejad não deixou quase nada em aberto para outras interpretações quando declarou em Teerão no sábado: «indubitavelmente, o novo governo do Irão terá uma atitude mais decisiva e firme para com o Ocidente. Desta vez a resposta iraniana será mais dura e mais decisiva» e levará a que o Ocidente lamente a sua «atitude intrometida». Não restam quaisquer dúvidas que Teerão não responderá através do Twitter.

* M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira da União Indiana, tendo prestado serviço, entre outros países, na ex-URSS, Alemanha, Paquistão e Turquia.

Este texto foi publicado em www.atimes/Middle_East/KG01Ak03.html em 30 de Junho de 2009.
Tradução de José Paulo Gascão

NOTA: As origens do actual Irão estão no antigo Império Persa, fundado em 539 a.C. por Ciro, O Grande. A invasão árabe, em 635 da nossa era, trouxe consigo a conversão dos seus habitantes ao islamismo. Depois da invasão turca no século XI e dos mongóis no século XIII, recuperou a independência, passou por várias dinastias e no século XIX foi cenário de dis+puta entre o Reino Unido e a Rússia que, em 1906, dividiram o território em áreas de influência, cabendo aos ingleses explorar o petróleo, s~descoberto em 1908. Em 1921 o general Reza Khan derrubou o í~´ultimo sultão Kajar coroando-se Xá em 1926, com o nome de Reza Shah Pahlev. Em 1935, um decreto real mudou o nome do país para Irão. Em Janeiro de 1979 o Xá Mohamed Reza Pahlevi abandonou o país que entrou na procura de novo rumo sob grande influência dos Ayatollas que exercem um forte poder religioso.

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domingo, 29 de março de 2009

A melhor religião, segundo Dalai Lama

Estamos a aproximar-nos da Páscoa e, mesmo que não sejamos crentes, não faz mal aproveitar estes momentos para meditarmos nas realidades da vida em que os vectores religiosos têm um lugar mais ou menos importante. Por isso, e para ir ao encontro da lição da amiga Maria Letra ao filho, não quero deixar de aproveitar este texto que recebi por e-mail e que trata de um breve diálogo entre o teólogo brasileiro Leonardo Boff e Dalai Lama.

Leonardo Boff explica:

"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos, na qual ambos participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga:
- "Santidade, qual é a melhor religião?"
Esperava que ele dissesse:
"É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo."
O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos - o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia contida na pergunta - e afirmou:
- "A melhor religião é a que mais te aproxima de Deus.
É aquela que te faz melhor."
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:
- "O que me faz melhor?"
Respondeu ele:
- "Aquilo que te faz mais compassivo (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável...
A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião..."
Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável

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sexta-feira, 18 de abril de 2008

O Papa, comparado a pastor?

No post anterior, está um comentário que compara Sua Santidade a um pastor e acaba por fazer uma salada com Papa, Bush e deputados loucos. Isto merece uma reflexão muito participada pelo que aqui deixo uns tópicos para a polémica.

Sua Santidade não pode nem deve ser comparado a um qualquer pastor de gado, de qualquer região do País. As pessoas, crentes ou não, não são ovelhas nem cabras, pois são dotadas de livre arbítrio e, como tal, podem comportar-se como desejarem, usufruindo depois, dos benefícios resultantes das decisões acertadas e arcando com os inconvenientes das acções menos correctas. É isso que os mais fanáticos associam à ideia de pecado e de prémio ou castigo na vida do além.

O pastor de gado tem o dever de controlar totalmente e sem intervalos o seu rebanho, pelo qual é totalmente responsável, mas o Papa não tem a mínima autoridade sobre os seus crentes, não os pode controlar e impedir de errar, porque isso iria conflituar com a liberdade e o livre arbítrio de cada um, que é responsável pelos seus actos e, segundo a sua fé, por eles será julgado no além.

O Papa é um conselheiro, um dirigente espiritual, um inspirador do Bem, para aqueles que o desejam ouvir e aceitam as suas opiniões.

A Igreja não foi criada por Cristo e Este foi o único representante do Pai na Terra e não delegou tal função em qualquer mortal, em qualquer dos seus «irmãos». E a Igreja não tem sido um modelo de cumprimento dos ideais de Cristo, como facilmente se vê na opulência do Vaticano e de todas as catedrais do Mundo, o que acontece, aliás, em todos os lugares de culto das outras religiões. Esse fausto surgiu como fruto das fraquezas humanas, que levam a respeitar apenas o que é grande e rico, mas afastou-se imenso dos ideais de simplicidade e desprendimento aconselhado por Cristo.

Também o amor aos outros, como a nós mesmos tem sido muito mal interpretado e praticado, principalmente no respeitante à palavra OUTROS. Se esse conceito tivesse sido bem interiorizado, não teria havido as cruzadas nem a Inquisição. Nestes e noutros casos, os OUTROS não foram amados e nem sequer respeitados.

E, apesar das declaradas intenções ecuménicas, as religiões continuarão a ser rivais entre si porque os respectivos «pastores» não querem perder as suas mordomias, o seu poder, comportando-se como os líderes de partidos políticos, nas suas rivalidades interpartidárias e intestinas.

Não nos deixemos iludir por palavras enganosas. O pastor de ovelhas ou de cabras tem características próprias, diferentes dos líderes de pessoas, dos chamados condutores de homens.

Por fim, quando se diz que o Mundo está louco, tem de se enfrentar as realidades sociais globais desde as relações de trabalho, às estruturas políticas, passando pelo desporto e pelas religiões. Por exemplo, numa época em que muita gente se afasta dos cultos religiosos mais tradicionais, influenciada pelo materialismo laico, maior é, estranhamente, a adesão a seitas nascentes e também a busca na droga de solução para as dúvidas e angústias espirituais, para a crise existencial.

Parece imperioso o apoio da fé na pesquisa da solução para os problemas mais complexos que preocupam as mentes, mesmo as evoluídas, mas raramente ela é procurada na direcção mais adequada. O ser humano é demasiado complexo e não deve ser encarado como se de ovelhas se tratasse.

Posts anteriores sobre religião:
- Páscoa. Religiões. Reflexões
- Festa de Natal tem 4.000 anos

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