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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Regresso aos mercados


Transcrição de post publicado por António Horta Pinto em Ponte Europa seguido de NOTA:

Portugal “regressou aos mercados”. Ou “os mercados” regressaram a Portugal.

Não sei ainda se será boa ou má notícia.

O governo e a coligação que o suporta embandeiraram em arco, embora não lhes caiba minimamente o mérito da “proeza”. Como se sabe, tal regresso deve-se sobretudo a uma mudança de política do Banco Central Europeu, que também se refletiu noutros países, e à decisão do Eurogrupo de nos conceder mais tempo para pagar a dívida, coisa que o governo português sempre disse que não queria.

Os banqueiros rejubilaram, o que não é propriamente um bom augúrio. Para eles deve ser bom. Mas será bom também para a generalidade dos portugueses?

Não sou perito em economia, mas não me sinto diminuído por isso. Os economistas também não são. É notório que são incapazes de fazer previsões. O próprio Miguel Beleza disse um dia que um dos seus melhores professores americanos dizia aos alunos: “nunca façam previsões! Mas se alguma vez tiverem de as fazer, então procurem fazer duas ou três, que assim pode ser que acertem nalguma delas!” Contundente, disse M. Sousa Tavares que eles eram peritos em autópsias: só depois de morto o doente é que eram capazes de explicar “cientificamente” porque tinha ele morrido. Enfim, para usar linguagem desportiva, só são capazes de fazer “prognósticos” depois do jogo.

Para já, o regozijo dos banqueiros e da comissão liquidatária que faz as vezes de governo só me leva a desconfiar.

Se com este “regresso aos mercados” o desemprego diminuir, a miséria desaparecer, a pobreza se reduzir, o salário mínimo aumentar, as pensões mais baixas deixarem de chegar só para a farmácia; se desistirem de destruir o serviço nacional de saúde e a escola pública, se deixarem de espoliar os trabalhadores e os reformados, se as pequenas e médias empresas que ainda sobrevivem escaparem à eminente falência; se os jovens deixarem de ter de procurar sustento no estrangeiro; se deixarem de atentar contra a Constituição; então também aplaudirei.

Entretanto, acho mais prudente não deitar foguetes e manter o “malefício” da dúvida!

NOTA: É oportuna a referência preocupada ao feudalismo dos grandes grupos económicos e à troika num curto mas destacado parágrafo. Faço um pequeno reparo a dizer que as pequenas pensões já não chegam para as farmácias, onde os doentes aviam apenas uma pequena parte da medicação por falta de dinheiro e escolhem os «genéricos» mais baratos. As condições em que o autor dará o seu aplauso, correspondem aos interesses da quase totalidade dos portugueses, só não interessando aos «senhores» do tal feudalismo.

Imagem de arquivo

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O «mercado» não é um bicho-papão !!!

Ouve-se argumentos que nos dão o «mercado» como um terrível ogre que come criancinhas, uma ferramenta muito usada na propaganda tal como o medo do FMI. Por isso será interessante que se leia a explicação dada por João César das Neves, onde podemos concluir que, simplesmente, o mercado somos nós, todos nós.

Mercados
DESTAK 01-12-2010. Por João César das Neves

Portugal anda dominado pelos mercados. Os caprichos dessas entidades estranhas comandam a nossa política e até a nossa vida. Daí vêm todos os nossos problemas. Mas o que são esses misteriosos mercados?

De facto não há nada de sinistro na entidade. Trata--se de pessoas como nós. Muitas pessoas como nós. Têm família, emprego e férias, sonhos e problemas, alegrias e tristezas. A sua primeira característica é serem uma multi-dão, tão vasta e diversificada quanto se possa imaginar. São tanto que têm apenas quatro coisas em comum.

Primeiro fizeram poupanças e têm dinheiritos de lado. Nisso, mais ou menos, estão como nós. Segundo, emprestaram ao Governo português. Esta sua imprudência pode, à primeira vista, torná-los estranhos. Como puderam ser tão tolos? Mas se virmos bem não é tanto assim. Muitos de nós têm certificados de aforro, títulos do Estado, etc. Se temos então, surpresa!, nós somos eles. Mas mesmo que não tenhamos, é compreensível que pessoas normais, em tempos mais calmos, tenham escolhido essa aplicação de poupança, hoje tão pouco recomendável.

As outras duas características são ainda mais pacíficas. Primeiro, eles querem o seu dinheiro de volta ou, melhor, querem continuar a receber juros das suas economias. Finalmente, não acreditam que o Governo português seja capaz de tal, depois de tantas promessas, hesitações e trapalhadas. Qual de nós os pode censurar?

Como se vê, nesta história, o mal não está nos mercados, mas do outro lado. É das promessas, hesitações e trapalhadas que vêm os nossos problemas.

Imagem da Net

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domingo, 5 de outubro de 2008

Crise financeira e crise de valores morais

Tenho aqui pugnado pela restauração de valores morais que têm sido esquecidos na vida materialista moderna e cuja ausência tem arrastado a sociedade para um estado de desumanidade, irresponsabilidade e atribulações económicas e financeiras cuja gravidade é hoje bem visível e lamentável.

Na América, epicentro da actual crise, os bispos debruçaram-se na análise do fenómeno e chegaram à conclusão de que devem ser recordados princípios-chave, de que "os princípios morais podem ajudar na busca de respostas efectivas à desordem económica", salvaguardando "a vida e a dignidade humanas".

Na causa da crise da sociedade moderna está a avaliação das pessoas pelo que têm ou aparentam ter e não pelo que são intrinsecamente, o capitalismo desregrado, a liberdade ilimitada do mercado, a "busca escandalosa de benefícios económicos excessivos», sem olhar aos resultados nefastos na vida real das pessoas e sem curar de respeitar a solidariedade e o bem comum.

Será justo e moral que se averigue e se sancione a "responsabilidade e a necessidade de prestar contas", porque "quem contribuiu para esta crise ou se aproveitou dela não deveria ser recompensado ou escapar sem prestar contas do dano que causou". O anonimato dos elementos de órgãos directivos colectivos dispersa o sentido de responsabilidade e arrasta para a impunidade os directores e gestores de topo que são bem pagos mas passam ao lado do mal que praticam, imunes e impunes.

É absolutamente necessário nunca olvidar que "há necessidades humanas que não encontram lugar no mercado", o que implica a "renovação dos instrumentos de controlo e a correcção das instituições económicas e da indústria financeira", tendo presente que a finalidade de uma política séria e honesta é garantir as melhores condições de vida das pessoas, com solidariedade e equidade.

Deve ser incentivada e desenvolvida uma sociedade do trabalho, da iniciativa e da participação, que não esteja contra o mercado, mas que exija que este seja controlado pelas forças sociais e pelo Estado a fim de ser conseguida a ampla satisfação das necessidades básicas da população.

Deve respeitar-se o princípio de subsidiariedade, que leva "os agentes privados e as instituições à responsabilidade, para que aceitem as suas próprias obrigações", sob pena de as altas entidades, incluindo os governos, excederem as suas prerrogativas e substituírem indevidamente as instituições privadas.

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