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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um Homem honrado, como poucos

Recebi agora por e-mail este artigo que se refere a um nenúfar no meio do pântano. É oportuno que esqueçamos apenas por uns minutos a Face Oculta e meditemos neste exemplo, do outro extremo, de decência, seriedade, honradez, sentido de Estado.

Seres decentes
Por Fernando Dacosta, na revista Tempo Livre, nº 82 de Outubro de 2008

Quando cumpria o seu segundo mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo Governo uma lei especialmente congeminada contra si.

O texto impedia que o vencimento do Chefe do Estado fosse «acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência» públicas que viesse a receber.

Sem hesitar, o visado promulgou-o, impedindo-se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira.

O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor.

Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros.

Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu, porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados - e não aceitou o dinheiro.

Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem, nos imergem por todos os lados.

As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social.

Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe.
«Não, não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a. Mas pedi-la, não. Nunca!»

O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta, de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos.

"A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção", dirá. Torna-se indispensável "preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora".

Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões da honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta - acrescentando os outros.

"Senti a marginalização e tentei viver", confidenciará, "fora dela. Reagi como tímido, liderando".

O acto do antigo Presidente («cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos) ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética.

Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar-nos, a acreditar-nos - condição imprescindível ao futuro dos que persistem em ser decentes.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Gente com honra é indispensável

Esta luta contra a corrupção e o enriquecimento ilícito compete a cada português, não se compadecendo, por isso, com arrogâncias, com manobras escuras e com o saque a valores monetários ou outros. As pessoas honradas não podem nem devem cruzar os braços e esperar que outros resolvam o problema e lhes coloquem na mão os resultados obtidos. É uma luta de gente honrada que não pode adiar nem cruzar os braços. O adiamento tem produzido o avontade crescente que chegou ao escândalo actual. Deixar de colaborar no combate a esta situação é ser conivente com ela.

Uma questão de honra
Jornal de Notícias. 16 de Novembro de 12009. Por Mário Crespo

Mark Felt foi um daqueles príncipes que o sólido ensino superior norte-americano produz com saudável regularidade. Tinha uma licenciatura em Direito de Georgetown e chegou a ser uma alta patente da marinha dos Estados Unidos. Com este formidável equipamento académico desempenhou missões complexas no Pentágono e na CIA.

Durante a guerra do Vietname serviu no Conselho Nacional de Segurança de Henry Kissinger. Acabou como Director Adjunto do equivalente americano à nossa Polícia Judiciária. Durante vários anos foi Director Geral interino do FBI. Foi nesse período que Mark Felt se tornou no Garganta Funda.

Muito se tem escrito sobre as motivações de um alto funcionário do aparelho judiciário americano na quebra do segredo de justiça no Watergate. Todo o curriculum de Felt impunha-lhe, instintivamente, a orientação clássica de manter reserva total sobre assuntos do Estado. Hoje é consensual que Mark Felt só pode ter denunciado a traição presidencial de Nixon por uma razão.

Para ele, militar e jurista, acabar com o saque da democracia americana era uma questão de honra. Pôr fim a uma presidência corrupta e totalitária era um imperativo constitucional. Felt começou a orientar em segredo os repórteres do Washington Post quando constatou que todo o aparelho de estado americano tinha sido capturado na teia tecida pela Casa Branca de Nixon e que, com as provas a serem destruídas, os assaltos ao multipartidarismo ficariam impunes. A única saída era delegar poder na opinião pública para forçar os vários ramos executivos a cumprir as suas obrigações constitucionais.

Estamos a viver em Portugal momentos equiparáveis. Em tudo. Se os mecanismos judiciais ficarem entregues a si próprios, entre pulsões absurdamente garantisticas, infinitas possibilidades dilatórias que se acomodam nos seus meandros e as patéticas lutas de galos, os elementos de prova desaparecem ou são esquecidos. Os delitos ficam impunes e uma classe de prevaricadores calculistas perpetua-se no poder.

Face a isto, há quem no sistema judicial esteja consciente destas falhas do Estado e, por uma questão de honra e dever, esteja a fazer chegar à opinião pública elementos concretos e sólidos sobre aquilo que, até aqui, só se sussurrava em surdinas cúmplices. E assim sabe-se o que dizem as escutas e o que dizem as gravações feitas com câmaras ocultas que registam pedidos de subornos colossais. Ficámos a conhecer as estratégias para amordaçar liberdades de informação com dinheiro do Estado. E sabemos tudo isto porque, felizmente, há gente de honra que o dá a conhecer.

Por isso, eu confio no Procurador que mandou investigar as conversas de Vara com quem quer que fosse. Fê-lo porque achou que nelas haveria matéria de importância nacional. E há. Confio no Juiz que autorizou as escutas quando detectou indícios de que entre os contactos de Vara havia faces até aqui ocultas com comportamentos intoleráveis.

E, infelizmente o digo, confio, sobretudo, em quem com toda a dignidade democrática e grande risco pessoal, tem tomado a difícil decisão de trazer ao conhecimento público indícios de infâmias que, de outro modo, ficariam impunes. A luta que empreenderam, pela rectificação de um sistema que a corrupção e o medo incapacitaram, é muito perigosa.

Desejo-lhes boa sorte. Nesta fase, travam a batalha fundamental para a sobrevivência da democracia em Portugal. Têm que continuar a lutar. Até que a oposição cumpra o seu dever e faça cair este governo.

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domingo, 1 de novembro de 2009

Rui Rio político sério

Quando aqui são referidos casos como operação Face Oculta, Apito Dourado, BPN, Freeport, Aterro Sanitário da Cova da Beira, Vale da Rosa, Casa Pia, Facturas Falsas, Furacão, Portucale, etc. que directa ou indirectamente afectam a imagem de honorabilidade de políticos activos ou já afastados e que configuram uma tela negra em desfavor de homens públicos de cariz político, costumo evitar generalizar admitindo expressamente que pode haver «eventuais excepções». E há excepções, felizmente, pois nem todos caem nas tentações da corrupção e do enriquecimento ilícito ou na simples conivência da troca de favores.

Por outro lado a corrupção, mal que afecta gravemente o país segundo as notícias e as conversas a todos os níveis e sectores, pode ser combatida se os detentores do poder tiverem vontade para isso, como preconizou o engenheiro João Cravinho e agora demonstrou, de forma bem visível, o presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, que não quer ser cúmplice ou conivente de um acto de corrupção que, segundo se diz por aí, não é raro nem excepcional.

O caso de corrupção de um técnico da Câmara, agora abortado pelo presidente Rui Rio, pode ser visto com mais pormenor no Jornal de Notícias e no Público, fazendo clique nestes links.

Sendo a corrupção difícil de detectar directamente, torna-se necessário, para ser combatida e dissuadir ou evitar os potenciais praticantes, que cada caso conhecido seja comunicado de qualquer forma às autoridades policiais ou judiciais. Torna-se dever de cada um participar na cura dessa chaga que prejudica os interesses nacionais, os dinheiros dos contribuintes e o bom funcionamento dos serviços públicos. Um empreiteiro que paga luvas vai buscar o dinheiro ao seu cliente que paga por um serviço perfeito e recebe uma obra de menor qualidade.

Rui Rio dá um exemplo de muito mérito que deve ser seguido por todos os responsáveis pela gestão pública. Continue com essa ética e nunca esmoreça.

A cidade do Porto está de parabéns pela acção do seu presidente.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

(Ir)responsabilidades da Administração

Agora é preciso procurar compreender o que se passa, à luz das mais recentes palavras dos políticos. Tudo se compreende melhor desde que foi dito que ética e política são coisas independentes e que não se ajustam entre si. Assim se devem interpretar as duas notícias hoje vindas a público e a seguir referidas.

Uma notícia tem por título «Recebeu 27 mil euros a mais da CML e já não tem de os devolver» (Público. 03.09.2009. Ana Henriques)

«Um alto funcionário da Câmara de Lisboa, até Janeiro director de recursos humanos do município, recebeu 27.500 euros de salários a mais, mas já não tem de os repor, porque a autarquia deixou passar os prazos de devolução.» (…) Para ler tudo siga o link.

Parece que, sem ética, as Instituições são mera ficção. Sob a capa dos títulos das entidades de gestão colectiva e «responsabilidade» diluída, quando existe, os supostos «responsáveis» podem cometer os piores crimes que são inimputáveis, imunes e impunes e passam as culpas para o nome das instituições. Os erros, os crimes deixam de ser deles para ser da organização. Onde mais se passa isto? Quem olha por isto? Quem defende os interesses públicos, nacionais? O funcionário que se fechou com dinheiro indevido, devia ser responsabilizado, o seu chefe devia ter controlado e, se não controlou, devia ser responsabilizado, bem como o chefe deste e o deste. A cadeia hierárquica existe para isso. Houve um criminoso que teve coniventes.
Agora em vez de ser exigida responsabilidades deste grupo de malfeitores a notícia limita-se a dizer que a autarquia deixou passar os prazos de devolução. E quem é a autarquia? Para que vamos votar se, depois, não há quem preste contas aos munícipes através dos canais da Justiça?

A outra notícia é intitulada «Governo aprovou hoje suspensão do PDM que a Câmara de Lisboa discutiu ontem» (Público. 03.09.2009 - 22h01 José António Cerejo)

«Quartel da Graça.
Poucas vezes a pressa terá sido tanta, ou a eficácia da máquina governamental tão grande: O Conselho de Ministros aprovou hoje a suspensão parcial do Plano Director Municipal (PDM) de Lisboa, pouco mais de 12 horas depois de a Câmara ter aprovado uma proposta em que se compromete a emitir um parecer sem o qual o Governo não poderia tomar a decisão que tomou.

A resolução governamental determina a suspensão do PDM na área do Quartel da Graça, por um período de três anos, por forma a viabilizar a sua mudança de uso para fins não militares, nomeadamente hoteleiros,» (…) Para ler tudo, siga o link.

Ao contrário do caso anterior em que a demora e o fechar de olhos foi benéfico a um alto funcionário, bem acolitado, nesta notícia, que recorda a brevidade havida no suspeito caso Freeport, foi batido mais um recorde de velocidade. Como naquele caso, o corrupto passivo pode ficar oculto pela neblina das pressões, mas o c. activo poderá ser a cadeia de hotéis beneficiada com o edifício muito bem dimensionado e localizado. Os sinais indiciadores não tardarão a ser percebidos por quem estiver atento, embora o resultado seja nulo como vem sendo costume.

Quanto a estes casos, seria bom visitar os posts Justiça e poderosos em Estados de Direito, Aprender as lições e Sentido da Honra e da Responsabilidade e meditar no seu conteúdo.

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domingo, 24 de maio de 2009

Alegadamente... Países decentes

Para comparar com o que se passa cá na aldeia lusitana. São países atrasados que ainda se preocupam com honra, responsabilidade, imagem, dignidade, vergonha e acreditam no ditado «à mulher de César não basta ser séria, sendo preciso também parecê-lo»!!! Tema em sintonia com o post Sentido da Honra e da Responsabilidade.

Acredite se quiser

JN. 2009-05-21. Por Manuel António Pina

Notícias surpreendentes lá de fora: o primeiro-ministro belga, Yves Leterme, propôs hoje (19/12/08) a demissão de todo o Governo, na sequência de acusações de alegadas (alegadas, imagine-se!) pressões sobre a justiça. Leterme nega qualquer pressão sobre o poder judiciário e apenas admite ter feito "contactos"; Michael Martin, presidente da Câmara dos Comuns, anunciou hoje (19/05/09) a demissão, após acusações de alegadamente (alegadamente, pasme-se) ter consentido alegados (só alegados) abusos nas despesas de representação de alguns deputados; dois membros da Câmara dos Lordes foram hoje (20/05/09) suspensos (suspensos, a democracia inglesa está maluca!) por alegadamente (outra vez só alegadamente) terem aceitado dinheiro para votar projectos de lei.

Nenhum deles foi, pasme-se de novo, condenado por sentença transitada em julgado, e mesmo assim, pasme-se ainda mais, tiraram consequências políticas de alegações fundamentadas que os visavam. Então e aquela coisa da "presunção de inocência"? As democracias belga e inglesa têm que comer muita papa Maizena para chegarem aos calcanhares da nossa...

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Sentido da Honra e da Responsabilidade

Há dias circulou por e-mail um vídeo de um politico americano perante jornalistas convocados para um comunicado à imprensa em que confessou corrupção cometida no seu cargo, entregou um comunicado escrito e, a seguir, retirou de um envelope uma pistola que disparou contra o céu da boca tendo morte imediata.

Hoje no Público Online, vem a notícia do suicídio de um ex Presidente da Coreia do Sul que era acusado de corrupção A notícia pode ser lida fazendo clique neste link Antigo Presidente da Coreia do Sul Roh Moo-Hyun suicida-se.

Na Coreia do Sul, como em alguns outros Países existe o respeito pela Honra, sentido das responsabilidades e defesa da face. Este não quis sujeitar-se à sorte de dois seus antecessores que, em Agosto de 1996, foram severamente condenados em Tribunal. Nessa data, dois antigos Presidentes, apesar de terem sido pilares muito válidos na construção económica do País que tinha sido destruído pela guerra com o vizinho do Nortr, ouviram sentenças por terem cedido à tentação da corrupção, tendo o General Park Chung Hee sido condenado à morte e Roh Tae-Wu a 22 anos de prisão.

Agora Roh Moo-Hyun, que foi Presidente entre 2003 e 2008, suicidou-se ontem saltando de uma rocha e precipitando-se de uma falésia, de acordo com familiares e uma carta de adeus que deixou, em que dizia “não fiquem tristes; a morte e a vida não são a mesma coisa?”

Não se deve fazer a apologia deste género de morte, mas não podemos deixar de desejar que, de uma forma serena e civilizada, muitos responsáveis por irregularidades e atitudes desonestas, contrárias à ética, se confessem publicamente e se auto penalizem pelas indignidades que só não os envergonham porque não sabem o que é honra, dignidade, vergonha e sentido das responsabilidades. Estão neste caso situações de corrupção, tráficos diversos e transacções com dinheiro vivo, visíveis pelo enriquecimento ilícito e rápido, o que é especialmente grave e danoso quando podem estar em jogo dinheiros públicos.
Eis o vídeo do caso de corrupção citado no início

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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Secretário de Estado mentiu miseravelmente

Os políticos costumam dar-se liberdades pouco abonatórias de falsear a verdade, mas tudo tem limites, e um deles é não lesar a dignidade de entidades que têm direito a ter prestígio perante a Nação e que são pilares da segurança nacional.

Segundo o DN, o secretário de Estado da Defesa, João Mira Gomes, no passado dia 30, horas depois de o general Loureiro dos Santos (reforma) alertar para a tensão existente nas fileiras, disse que "As chefias militares não nos transmitem qualquer informação" sobre quaisquer "movimentos de descontentamento a nível de qualquer escalão das forças militares", "Não consideramos que haja qualquer tipo de clima de instabilidade nas Forças Armadas."

Estas palavras fragilizaram a posição dos mais altos responsáveis pelos Ramos das Forças Armadas. O seu prestígio ficou abalado com tais afirmações.

Ontem em entrevista televisiva o ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, afirmou, de forma clara, que "as chefias militares têm transmitido ao Governo as preocupações e as expectativas das Forças Armadas".

Estas palavras do ministro provam que o secretário de Estado mentiu miseravelmente, afectando os responsáveis militares.

Perante esta indignidade de um governante, os Chefes Militares devem agir em conformidade e deixar de falar com tal tratante. Parece que deveriam ir já ao gabinete do ministro e dizer claramente: «Não voltamos a falar com tal indivíduo mentiroso desonesto. Exigimos que seja demitido até ao toque de recolher de hoje. Se o não for, amanhã ao toque de alvorada traremos ao Sr. Ministro os nossos pedidos de exoneração dos cargos».

Nessa tomada de posição são apoiados pelos sargentos que segundo o JN em «Militares faltam a almoço e preparam protestos» estão activos mostrando que não lhes falta aquela fruta, hoje muito escassa. Se os Chefes tomarem esta atitude granjearão o respeito e admiração de todos os militares e mostram-se merecedores das estrelas que ostentam.

Os militares e a Nação têm os olhos focados em tais chefes e esperam ver tal prova da sua dignidade.

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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Dois textos referidos a Ramalho Eanes

Depois do post «O argumento de honra», publico agora dois textos acerca do General ex-PR, Ramalho Eanes – uma carta aberta recebida por e-mail do autor e um texto extraído do blog Ecos e comentários.

CARTA ABERTA AO GENERAL RAMALHO EANES
Pelo Cor Alberto Ribeiro Soares

O País teve, há uns dias, oportunidade de ouvir novamente falar de si.

E pelas melhores razões: porque terá recusado receber retroactivos de valor superior a um milhão de Euros, que lhe seriam devidos por passar a ser abrangido pela lei que permite, aos ex-Presidentes da República, acumularem a respectiva pensão com outras a que tenham direito.
Um gesto raro (embora não inédito) de desprendimento dos bens terrenos, por que tantos, de forma ostensiva, lutam muito para além do razoável.

Recordo que, já em tempos distantes (a seguir ao 25 de Novembro de 1975), o Senhor General recusou receber o diferencial do vencimento do seu posto efectivo (tenente-coronel) para aquele em que foi graduado (general de 4 estrelas) para as funções de Chefe do Estado-Maior do Exército. Não tenho ideia do quantitativo mensal, mas passaram-me pelas mãos documentos que referiam a transferência dessas importâncias para instituições de solidariedade social, o que aconteceu, pelo menos, até à sua eleição para Presidente da República, em Junho de 1976.
É por isso que não concordo inteiramente com a sua atitude recente.

De facto, aceito – e aplaudo – que recuse o benefício pessoal desse mais de um milhão de Euros.
Mas entendo que não é legítimo deixar nas mãos rotas de uma administração pública tão esbanjadora de recursos (como é a nossa) uma importância que faria a felicidade de muitas instituições.
A começar pela Liga dos Combatentes, de que é Sócio de Mérito, que tem em carteira projectos de criação de vários Lares para ex-Combatentes idosos e desprotegidos.
Continuando pelas associações de militares (AOFA, Associação de Oficiais das Forças Armadas; ASMIR, Associação dos Militares na Reserva e Reforma; ANS, Associação Nacional de Sargentos; APA, Associação de Praças da Armada; e outras) que lutam, por todos os meios legais mas com manifesta escassez de meios, contra os desmandos do Estado que recusa pagar (desde há longos anos) o que a Assembleia da República, por unanimidade, entendeu ser de justiça atribuir aos Militares.

E muitas instituições de solidariedade social (entre as quais se incluem algumas de militares, como a Associação de Comandos) que, à semelhança do que aconteceu em 1975, muito agradeceriam a parte do óbulo que lhes coubesse, certamente melhor aplicado do que o poço sem fundo que será o seu destino fatal – se não for por si aceite e logo distribuído como melhor entender.

Se ainda for a tempo, Senhor General Ramalho Eanes, reconsidere: mantenha a recusa de usar esse dinheiro em proveito próprio, mas aceite recebê-lo e distribuí-lo para fins filantrópicos.
Espero poder voltar a felicitá-lo em breve.

Atenciosamente
Alberto Ribeiro Soares
Coronel do Exército

AS RECUSAS DE EANES

A maioria dos que me lêem, sabem da minha relação de proximidade com o General Ramalho Eanes que foi o primeiro Presidente da Republica eleito democraticamente depois do 25 de Abril. Conheço-o de antes disso, em virtude de ter sido, também, oficial do Exército, ensinado na mesma Escola de Ensino Superior Militar em que ele foi.

A primeira a vez que ouvi falar do seu nome foi numa circunstância que nada tem a ver, ou terá, com o seu envolvimento nos acontecimentos relacionados com o 25 de Abril de 74 ou, com a contenção político-militar do 25 de Novembro do ano seguinte. Havia, já no final da década de 60, uma relação difícil entre os mais jovens oficiais, como eu, e os capitães que davam instrução na Academia Militar (AM), que nos levou a assumir o risco de só cumprimentar (fazer continência) os capitães identificados com qualidades excepcionais, tanto no relacionamento humano como nas questões de natureza disciplinar. Um dia, quando me aproximada de um deles, que não conhecia, perguntei a um cadete, que estava por ali, quem era e como era o capitão que caminhava na minha direcção. Foi-me respondido que era o melhor instrutor da Academia. Alguns passos antes de me cruzar ele, iniciei o cumprimento da praxe a que ele respondeu com aprumo e cortesia. Fiquei a saber que era o Capitão Eanes.

Depois vieram outros episódios uns mais conhecidos da opinião pública, outros menos. De entre os que menos se conhecerão, estará a posição que tornou em 1973 redigindo e assinando, um onde contestava a submissão das, forças armadas à politica de então, por não representar nessa época, a vontade da expressão popular.

Esta semana foi noticiado pelos jornais que Eanes tinha recusado o recebimento de retroactivos da reforma a que teria direito e que só agora passa a receber, por ter sido corrigida uma anomalia criada por uma lei de 1984. E em mais de um milhão de euros!

No mundo em que vivemos e em que quase todas as coisas se fazem em função do dinheiro, num país onde há reformas públicas escandalosas e obscenas, a atitude de Eanes é um exemplo cívico e ético que deve constituir incentivo para que o governo continue a corrigir as deformações sociais com que o país ainda vive. Outra das recusas foi a promoção a marechal, posição a que ascenderam os anteriores generais que foram Presidentes da República, como Spínola e Costa Gomes. Por estas e outras razoes; Ramalho Eanes continua a ser a minha referencia ética e politica, para além do reconhecimento que tenho pelos que desempenham funções públicas e o fazem, principalmente, em nome do país e do povo que os elegeu. As recusas de Eanes exemplos virtuosos para todos. Especialmente para os que dizem servir, primeiro, o país. José Ribeiro Vieira. In Jornal de Leiria . 18 Setembro de 2008

Publicada por António Delgado em Terça-feira, Setembro 23, 2008, in
Ecos e comentários

NOTA: Quanto à carta aberta, apenas gostava de sugerir que às instituições militares indicadas como candidatas ao óbulo, deveriam ser indicadas outras de âmbito civil, porque além de militar Eanes foi Presidente de Portugal, de todos os portugueses. E já alguém escreveu que uma dessas instituições deveria ser uma da sua terra natal de apoio a carenciados.

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sábado, 20 de setembro de 2008

O argumento da honra

Texto de Baptista-Bastos, escritor e jornalista, no DN de 17 do corrente.

A ética republicana iluminava as virtudes do carácter e a grandeza dos princípios. As revoluções, idealmente, não são, apenas, alterações económicas e substituições de regimes. Transportam a ideia feliz de modificar as mentalidades. Essa mistura de sonho e ingenuidade nunca se resolveu. A esperança no nascimento do "homem novo" não é exclusiva dos bolcheviques. O homem das revoluções jamais abandonou o ideal de alterar o curso da História e de modelar os seus semelhantes à imagem estremecida das suas aspirações.

É uma ambição desmedida? Melhor do que ninguém, respondeu Sebastião da Gama:
"Pelo sonho é que vamos
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos."
A ética republicana combatia a sociedade do dinheiro, da superstição religiosa, da submissão, e pedia aos cidadãos que fossem instrumentos de liberdade. As "raízes vivas", de que falou Basílio Teles.

Fomos perdendo, sem sobressalto nem indignação, a matriz ética da República. De vez em quando, releio as páginas que narram os desassossegados dezasseis anos que durou o novo regime, obstinadamente defendido por muitos a quem se impunha a consciência do compromisso. Esses, entre o aplauso e o assobio, percorreram o caminho que vai do silêncio à perseguição, do exílio ao assassínio político. Morreram pobres. São os heróis de uma história que se dissipou, porque o fascismo impediu nos fosse contada, nas exactas dimensões das suas luzes e das suas sombras.

Relembrei estes episódios ao tomar conhecimento, pelo semanário Sol, de que Ramalho Eanes prescindira dos retroactivos a que tinha direito, relativos à reforma como general, nunca por ele recebidos. A importância ascende a um milhão e trezentos mil euros. É um assunto cujos contornos conformam uma pequena vindicta política. Em 1984, foi criada uma lei "impedindo que o vencimento de um presidente da República fosse acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência que aufiram do Estado." O chefe do Governo era Soares; o chefe do Estado, Ramalho Eanes, que, naturalmente, promulgou a lei.

O absurdo era escandaloso. Qualquer outro funcionário poderia somar reformas. Menos Eanes. Catorze anos depois, a discrepância foi corrigida. Propuseram ao ex-Presidente o recebimento dos retroactivos. Recusou. Eu não esperaria outra coisa deste homem, cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum. Ele reabilita a tradição de integridade de que, geralmente, a I República foi exemplo. Num país onde certas pensões de reforma são pornográficas, e os vencimentos de gestores" atingem o grau da afronta; onde súbitos enriquecimentos configuram uma afronta e a ganância criou o seu próprio vocabulário - a recusa de Eanes orgulha aqueles que ainda acreditam no argumento da honra.

NOTA: Se estas palavras tivessem sido escritas por um militar, diriam que era corporativismo, «eles a puxarem a brasa à sua sardinha». Bem haja Baptista Bastos por ter enfatizado a honra deste ilustre português que serviu Portugal sem querer servir-se. Bem haja Sr. General (porque não Marechal?) António Ramalho Eanes por esta lição que devia ser bem compreendida por tantos corruptos que enriquecem ilegitimamente, à custa de todos nós, como sublinhou o Eng João Cravinho. A sua honra e patriotismo levaram-no a colocar os interesses nacionais sempre muito acima dos próprios, como agora, mais uma vez evidencia.

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quinta-feira, 29 de maio de 2008

Inconstância de catavento

Segundo notícia do DN, o porta-voz da Casa Branca, entre 2003 e 2006, Scott McClellan, defendeu a guerra no Iraque (assumiu o cargo apenas uns meses após a invasão) e garantiu que a Administração estava a fazer tudo para ajudar as vítimas do furacão Katrina.

Depois de ter acompanhado Bush desde quando este foi governador do Texas e de servir, talvez pressionando, o Presidente durante três anos, apareceu agora com umas memórias, de 341 páginas, que surpreenderam todos por nelas tecer duras críticas ao antigo mentor que acusa, por exemplo, de ter enviado os EUA para "uma guerra desnecessária no Iraque". Refere que "a resposta falhada ao Katrina foi agravada por decisões anteriores como a ida para uma guerra sem planeamento adequado, nem preparação do pós-guerra".

Porquê, então, tanto entusiasmo como porta-voz? Porque permaneceu três anos nessas funções, em apoio de tais erros do seu patrão? Porque não saiu dessas funções? Será que nessa altura não era inteligente e agora é?

O que agora diz é do conhecimento de quem acompanhou as notícias internacionais, mas o facto de ter colaborado na campanha de propaganda da Casa Branca, em realidades que achava erradas, demonstra, deslealdade, falta de franqueza, oportunismo, desonestidade, falta de carácter. Vir agora afirmar tais erros, mais do que inconstância, é uma confissão da sua instabilidade que é mais nefasta para a sua imagem do que para a de Bush que já é sobejamente conhecido.

Isto tem odor de ambição, primeiro para ser pago pela Casa Branca e depois por interesses opostos ao Presidente que lhe terão oferecido mais. Já não há sinceridade nem amor à camisola, mas apenas o interesse no dinheiro.

No campo oposto, recordo a atitude honesta de um Sr. major de Cavalaria, conhecido por «Sistema», que sendo chefe da segurança do PR Costa Gomes e começando a não gostar de atitudes deste, pediu para sair dessas funções e disse para os seus companheiros de trabalho: «tenho por dever colocar-me ente o PR e uma bala que lhe seja dirigida e não quero que, quando isso possa vir a ser necessário, não tenha a convicção, a abnegação e a força suficiente para cumprir esse dever». Isto é honradez de um português que venera os heróis da nossa história.

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