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terça-feira, 31 de outubro de 2017

PARA AS NAUS A HAVER

«Para as naus a haver»
(Publicado no semanário O DIABO em 31 de Outubro de 2017)

É sobejamente sabido que a continuidade de um comportamento rotineiro sem lhe inserir alterações, actualizações ou adequações à evolução ambiental, provoca uma degradação persistente que conduz à anulação da intenção inicial. «Parar é morrer». No entanto, isto tem sido ignorado pelos governos e instituições públicas que justificam o acerto das suas atitudes por estarem inseridas naquilo que vinha do anterior. Isso foi notório no SIRESP e na ANPC.

Mas isto não significa que deva ser passada uma esponja que apague toda a experiência do passado, porque dele podemos, e devemos saber, tirar lições muito importantes, que nos ensinam a construir um futuro mais benéfico para o país. Agora foi recordado, com a notícia da destruição, pelo fogo, do célebre pinhal de Leiria que este foi plantado no reinado de D. Dinis para ter madeira «para as naus a haver» as quais permitiriam tirar proveito da nossa óptima localização geográfica com grande importância marítima. Representou olhos postos no longo prazo, indicação de inteligência e amor ao País, pensando nas gerações futuras. E a essa decisão com olhos postos no futuro proporcionou à equipa dirigida pelo Infante D. Henrique tomar decisões também focadas no longo prazo que conduziram aos descobrimentos que deram «novos mundos ao Mundo» e que foram a semente da globalização que veio a ser concretizada em anos recentes.

Seria bom que os actuais responsáveis pelo País imitassem estes pontos altos da história e se preocupassem mais com o futuro do que com os pequenos acontecimentos surgidas pela falta de prevenção, isto é, pela sua incompetência e inacção que os tem mantido a chafurdar no pântano da continuidade rotineira e demolidora, com a miopia que os não deixa olhar para o futuro com estruturas actualizadas e preventivas que evitem a repetição de erros demasiado velhos e repetidos, como os incêndios, que não foram evitados por medidas de protecção civil e de reforma da defesa das florestas, nem devidamente combatidos por falta de boa preparação dos agentes e por desajustada qualidade da comunicação.

O exposto no primeiro parágrafo foi confirmado pala atitude do PM que disse, há poucos dias, que seria «criancice» mudar de MAI. Mas o PR, com base no relatório da comissão de independentes sobre o ocorrido em Pedrógão Grande, incitou-o a fazer mudanças positivas para evitar desaires semelhantes e, então, o PM deixou de considerar «criancice» aquela e outras mudanças.

Nisto, como em muitos outros temas, as Forças Armadas dão exemplos a seguir, em que os factores da autoridade e da hierarquia não são os mais significativos. Qualquer decisão, táctica ou estratégica, é precedida por «estudo da situação» em que a missão é analisada, bem como as possibilidades do inimigo, as condições meteorológicas, o terreno, os meios e a sua utilização, e a comparação das possíveis modalidades de acção, para escolha da melhor. De decisão assim preparada, sai uma ordem de operações, e a posterior observação da «conduta da operação» a fim de, se necessário, serem introduzidas alterações adequadas a fazer face a aspectos novos dos factores da decisão, principalmente do inimigo. Nada é rígido e definitivo porque, se o fosse, aconteceria o que se referiu no primeiro parágrafo, como derrotas sucessivas até à definitiva. Não é «criancice» fazer retoques num plano inicial a fim de com ele se procurar atingir o objectivo final desejado.

O novo Secretário de Estado da Proteção Civil, engenheiro José Artur Neves, prefere a prevenção ao combate dos incêndios. e salienta que o investimento em meios de combate poderia "alimentar a ideia de que há aqui uma indústria de combate aos incêndios, que é perniciosa para todo este processo". Esperamos e desejamos que não se fique por estas palavras e as concretize, para os bons resultados «a haver».

António João Soares
24 de Outubro de 2017

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

QUEM CUIDARÁ DO FUTURO DE PORTUGAL


Transcrição de artigo seguida de NOTA:

Pacheco Pereira: “O país em que vivemos é um país irrespirável para uma pessoa honesta”
Ionline. Por Cláudia Reis. publicado em 16 Jan 2014 - 23:55

Pacheco Pereira criticou o congresso do CDS denominando- o de “populista”. Lobo Xavier diz que o CDS “fez um congresso fantástico” e António Costa falou em “encenação”.

Fazendo um balanço sobre o congresso do CDS que aconteceu no fim-de-semana passado, Pacheco Pereira foi bastante crítico. “O congresso do CDS é um acto de propaganda eleitoral do princípio ao fim”, disse Pacheco Pereira, lembrando que o mesmo acontece com “os outros partidos”.

O comentador acrescentou ainda que “mesmo as promessas que o CDS começa a fazer são promessas eleitorais pouco consistentes com as medidas tomadas actualmente”.

Para ele, “o CDS sempre teve características populistas, é um partido unipessoal, todos se elogiam uns aos outros e elogiam Paulo Portas”, afirmou.

Tendo em conta a realidade do país e as privatizações que o governo pretende fazer, Pacheco Pereira disse que “o país em que vivemos é um país irrespirável para uma pessoa honesta”.

Um exemplo da “vergonha” de país em que vivemos é para o comentador o referendo à co-adopção e à adopção por casais de pessoas do mesmo sexo proposta por um grupo de deputados do PSD. Segundo Pacheco Pereira trata-se de “má-fé”.

“Má-fé transformada em política governamental. Este é o país em que nós vivemos”, reiterou.

Já Lobo Xavier tem uma opinião muito diferente do colega dizendo que “não houve matéria para indignar ninguém no congresso do CDS”. O comentador diz que houve matérias que poderiam não ter sido discutidas no congresso e que pode ter sido “arriscado”, mas não entende que tenha sido feita “campanha eleitoral”.

Respondendo à provocação de Pacheco Pereira sobre o repetitivo elogio a Paulo Portas, Lobo Xavier disse que o CDS tem “um estilo próprio, que o culto a Portas é uma marca do partido”.

“Não vi nada no congresso que me causasse indignação. O CDS fez um congresso fantástico”, frisou Lobo Xavier.

Para António Costa o congresso do CDS “faz parte de uma encenação que está encenada entre os governos e a comissão europeia e todas essa turma”. O presidente da câmara de Lisboa diz que tudo isto “ajuda a uma ilusão de que as coisas correram bem, quando de facto não correram bem, por exemplo no que diz respeito ao controlo da dívida”. Questionado sobre o referendo à co-adopção por casais de pessoas do mesmo sexo, António Costa diz apenas que “é uma batotice”.

NOTA: O país está em más mãos. Mas como será no futuro próximo? As jotas não mostram intenções de elaborar uma estratégia de longo prazo, como as estratégias de D. Diniz a preparar a educação, a agricultura e a madeira para as naus dos futuros descobrimentos e a estratégia do Infante D. Henrique, ao abrir novos mundos ao mundo, difundir a nosso soberania, cultura, religião e interesses económicos. Agora perde-se tempo com a memória do grande Eusébio, com a co-adopção por homossexuais, com as tricas sobre o estaleiro de Viana, com o encerramento de lares de idosos sem pensar nos idosos, com a lotaria das facturas, e com outras futilidades, sem estabelecer prioridades nos projectos e no emprego do tempo e sem olhar seriamente para o dia de amanhã, para vida que se prepara para filhos e netos, que serão fruto da redução do ensino obrigatório, de maus cuidados de saúde, etc. etc.

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Acções concretas precisam-se

Transcreve-se artigo com proposta sensata, concreta que pode ser um bom ponto de partida para se sair do marasmo das «bocas foleiras» , das ideias inconsequentes e incongruentes que não conduzem a nada e, pelo contrário para se entrar num caminho lógico para modernizar Portugal. É uma proposta que se insere na metodologia Pensar antes de decidir, aqui referida em várias ocasiões.
Eis o artigo:

PS deve integrar comissão de cortes na despesa e levar propostas, diz Marcelo
PÚBLICO. 13/01/2013 - 22:28. MARIA LOPES

Comentador acredita que Governo não vai levar avante as sugestões “radicais” do FMI, cujo relatório serve apenas para “preparar o ambiente” para mais contenção.

Uma comissão com um texto inicial, composta por todos os partidos, sem lugar a votações finais, e onde os partidos da coligação e o PS apresentem medidas concretas. Este é o desenho ideal para a comissão parlamentar para os cortes na despesa do Estado, segundo Marcelo Rebelo de Sousa.

O comentador defendeu este domingo na TVI que “é fundamental que a comissão tenha a oposição. É importante que o PS lá esteja”.

“Tenho duas sugestões. Que a comissão tenha um texto inicial. Vai debater o quê? Uma comissão destas supõe um documento que sirva de referência. E que não haja votação final”, descreveu Marcelo Rebelo de Sousa. “Esta comissão serve para que os partidos da maioria mostrarem que têm alguma ideia da reforma que querem fazer. E também para a oposição deixar a sua posição e propostas.” Até porque, insiste o professor, “ainda não ouvimos uma ideia brilhante da parte de Pedro Passos Coelho e António José Seguro. Nem uma.” O trabalho da comissão será fundamental para aclarar posições, mas não é algo que se faça “a correr, em quatro semanas”, como é suposto acontecer, de acordo com o calendário que Passos Coelho quer cumprir.

Relatório “prepara o ambiente”

Sobre o relatório do FMI, Marcelo diz que se trata de um “relatório político com fundamentos técnicos. O FMI é uma organização política e apresenta propostas políticas.” O documento, no entender do professor, serve apenas para “preparar o ambiente”, porque acredita que “as decisões vão ser diferentes das mais radicais que lá estão”.

O relatório, porém, esqueceu uma questão fundamental – para além de se basear em dados estatísticos desactualizados: “Ignora a história do país e o que explica como ele é. O relatório ignora que Portugal teve sempre muito Estado e pouca sociedade civil. Foi esse factor que impediu a desagregação social.” E Marcelo também realça que “é uma incógnita saber se o país melhoraria com aquelas propostas”.

Mas a questão neste momento é saber “que ideias vão em frente”, depois de o Governo terminar o levantamento ministério a ministério que está a fazer. Marcelo não tem dúvidas que sejam aceites as sugestões de aumento de taxas moderadoras e de propinas, assim como da alteração das regras de cálculo das pensões e da saída de uma parte dos funcionários públicos por rescisão. Estas últimas serão sustentadas com os quatro milhões de euros extra que o Estado vai receber decorrentes da correcção cambial.

“O governo tem de ganhar a confiança dos portugueses para fazer isto, sem romper o consenso social”, avisa Marcelo, que considera que é preciso muito mais tempo do que as quatro semanas que o Governo prevê. “Não se muda uma característica histórica num mês. Vão todos debater a correr como vai ser. Cortar, corta-se, mas não se faz uma reforma do Estado em quatro semanas.”

Acerca da acusação de António José Seguro de que o Governo não tem legitimidade para levar avante estas reformas estruturais, Marcelo Rebelo de Sousa discorda. “O Governo tem, do ponto de vista do Direito, toda a legitimidade jurídica para fazer tudo o que está a fazer. Mas como disse Adriano Moreira, tem uma legitimidade política enfraquecida.” O professor recorda que “todos os que chegaram ao poder prometeram coisas que depois não fizeram”.

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sábado, 12 de julho de 2008

Falta de estratégia, de bússola

João Miranda, no seu artigo de opinião, no DN, Medidinhas, explica a táctica oscilante de pequenas medidas para minorar os efeitos da crise nos grupos mais vulneráveis da sociedade: os pobres, as crianças, os idosos, os jovens, as grávidas, etc

E termina dizendo que: «As medidinhas segmentam a sociedade em pequenas castas. Contribuem para a erosão da igualdade perante a lei. Criam excepções e privilégios que dependem da idade, do rendimento, do sexo, da capacidade de procriação e do estado civil. Criam um ambiente de apartheid social. Os pequenos privilégios são fáceis de criar, mas difíceis de reverter. Ao fim de vários anos acumulam-se medidinhas. Acumulam-se custos, privilégios, legislação e burocracia. Quando toma uma medidinha, o Governo está apenas preocupado com os interesses de um segmento do eleitorado. Uma vez satisfeito esse segmento, o Governo pode dedicar-se a satisfazer o segmento seguinte. Num dia subsidia o transporte rodoviário para contentar os camionistas, no outro penaliza o transporte rodoviário para contentar os ecologistas. As medidinhas acumuladas formam um corpo legislativo incoerente, o que acaba por criar uma nova oportunidade política. Estamos mesmo a precisar de um Simplex que organize num corpo coerente e simplificado todas as medidinhas que este Governo e os anteriores andaram a tomar.»

Mesmo com estas medidinhas, o problema não fica resolvido e, como diz Rudolfo Rebêlo no mesmo jornal, até a classe média se queixa que já sobra mês, os portugueses estão entre os mais pessimistas da União Europeia a 27 e a maioria considera que perdeu poder de compra nos últimos cinco anos e teme pelo futuro.

Gerir uma grande empresa e, com maior razão, governar um Estado, mesmo que pequeno em dimensão geográfica e demográfica, não se compadece com medidas pontuais, oscilantes em zigue-zague, descoordenadas, sem interacção bem estudada e planeada por forma a criar sinergias, sem objectivos bem definidos que orientem todas as decisões.

Para tomar decisões eficazes tendentes à resolução de problemas críticos e preparar um País moderno e desenvolvido, é preciso começar por identificar com rigor e isenção a situação actual, o ponto de partida, passando pelas actividades das regiões (urbanas e rurais), a população (quantidade, grau de escolaridade, aptidões profissionais prevalecentes, gostos culturais, etc.), valor dos rendimentos, outros recursos disponíveis. E, depois, com um adequado grau de ambição, realista e viável, estabelecer objectivos dentro de uma previsão de evolução bem planeada, seguido de decisão, estabelecer um plano estratégico de longo prazo (o mais possível conforme o objectivo) e acção calendarizada, coordenada e controlada, não perdendo de vista a finalidade, o objectivo pretendido previamente definido.

A táctica incipiente de medidinhas resulta, além dos inconvenientes apontados por João Miranda, numa má utilização dos recursos existentes, com desperdícios, em sobreposições, má rentabilidade, sem tapar todos os buracos que merecem atenção. Pode acabar num «pára e arranca» com recuos que constituem prova de incompetência e de peculato que, segundo o dicionário, significa desvio ou má administração de dinheiros públicos ou rendimentos por pessoa encarregada de os guardar ou administrar.

Desperdiçar recursos públicos é sempre falta muito grave e é ainda mais quando se trata de País pobre, com carências de toda a ordem.

Sobre este tema já aqui foram publicados textos de que são exemplo os seguintes títulos (links):

Incapacidade de planear e racionalizar
Partidos. Líderes e estratégia de governo
Governo sem bússola nem leme?

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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Futuro esquecido

Por merecer mais visibilidade do que um comentário trago para aqui o ponto de vista que Manuela deixou acerca do post Sobredotados sem compreensão e apoio do Governo, que junto uma nota que corresponde à resposta que no mesmo local lhe dei. O título que dou ao actual post parece errado porque esquecido só o passado! Mas, com ele, quero exprimir que os responsáveis por prever e planear o futuro estão esquecidos de que é essa a principal tarefa a que as suas funções os obrigam, aquelas funções que juraram desempenhar com lealdade a quem os elegeu.

As contradições dos nossos governantes percebem-se em atitudes que não são medidas e pensadas em termos futuros, a não ser o destino que antevêem para o seu próprio ego. (...) o local de debate prós e contras, o centro das decisões mais importantes do país, não passa de um metafórico pombal de interesses individuais, económicos e partidários, povoado de pombos-correio disfarçados, em campanhas coloridas, de defensores daquelas mesmas conveniências para um povo, iludido, que juraram defender.

Neste caso concreto, não interessam “centros de desenvolvimento” de cérebros ou de competências que, à partida, se poderiam distanciar de decisões “poucochinhas”, porque não é aí que importa apostar. Os “craques” devem ser rápidos, perceptíveis e proporcionar um lucro instantâneo para, eternamente, ficarem nas memórias dos cultores de um zapping social efémero. Tal como as escolas formadoras a longo prazo estão fora de moda,(embora camufladas por uma capa de igualdade e de oportunidades democráticas), porque delas não se retira esse proveito efémero ultra moderno, também as potencialidades humanas ficarão irremediavelmente comprometidas porque não se compadecem com a celeridade do tempo actual, do hoje que já é amanhã e, em simultâneo, “é” ontem.

Apregoa-se a colheita célere a partir de uma raiz podre que, naturalmente, só poderá dar origem a frutos inócuos e insípidos mas com aparente essência. Mesmo sem perceber muito de agricultura, sei que o solo onde se planta tem de ser adequado às diferentes espécies, regado, adubado e lavrado. Não admira, pois, que outros a quem foi dada a conhecer, por experiência, a importância do aproveitamento de recursos “naturais”, deles se aproveitem e deles venham a usufruir de forma calculada, porque pensada. (...)


NOTA: Sempre atenta e muito perpspicaz nas suas opiniões. Realmente o futuro está em perigo e Portugal, as suas gentes, continuam a navegar junto da costa à vista das escarpas, sem uma rota bem estabelecida que conduza a um porto previamente escolhido. Somos viajantes que saimos de casa sem rumo, nem destino, nem bússola, nem GPS, com hesitações em cada cruzamento e que ora vamos para Norte ora para Sul e acabamos perdidos a perguntar o caminho para lado nenhum. Temos de passa a andar todos «chipados» para que alguém que nos encontre saiba que somos portugueses e continuamos perdidos sem nos preocuparmos com o «para onde».

Cara Amiga, desta forma, o que serão amanhã os nossos netos? A única saída é emigrarem cedo, obterem lá fora conhecimentos para a vida e por lá ficarem o resto da vida.

Eu bem gostava de ter razões para ser optimista, esforço-mo por isso, mas em vão. Os sinais positivos esvaem-se com a mais leve brisa.

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segunda-feira, 16 de junho de 2008

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Do poeta insigne, e também sábio e filósofo Luís Vaz de Camões, um soneto que ajuda a compreender as realidades nacionais actuais. Outro português mais recente, defendendo que as mudanças devem ser feitas com sensatez para delas resultarem bons efeitos, disse que «mudar por mudar é disfarçar o vazio íntimo»

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

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