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domingo, 1 de agosto de 2010

Era assim há 139 anos. E agora?


"Excerto de "As Farpas" de Eça de Queirós, 139 anos depois...

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»

Escrito em 1871, por Eça de Queirós, no primeiro número d'As Farpas.

Recebido por e-mail. Serve para compararmos com a actualidade e meditar sobre a «grandeza» dos portugueses.

Imagem da Net.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Eça parece bruxo!!!

«ORDINARIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações, são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?»

(Eça de Queiroz, 1867, in «O Distrito de Évora»)

Recebido por e-mail:
Como este Eça de Queiroz consegue ser tão actual... Parece que era bruxo!
Comentário que trazia: Este texto, não só se mantém actual, como os nossos políticos e, quiçá, o nosso País (!) permanecem iguais... E porque será que nós, como Povo, continuamos a tolerar tais tipos de políticos?!
A seara parece não produzir melhor trigo, e o mondador não consegue evitar que o joio prolifere e avance no momento da colheita! Dos fracos não reza a história e eles são fortes nas artes referidas por Eça no início o texto, quais vendedores da banha da cobra.

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terça-feira, 7 de agosto de 2007

Emigração – fenómeno a ponderar

Tem-se falado na incomodidade dos nossos emigrantes devida ao encerramento de consulados e, como que por acaso, deparo com um texto de Eça de Queiroz, datado de Janeiro de 1872, inserido no livro «Uma campanha alegre», 14º volume das Obras completas, da Resomnia Editores, onde a páginas 216-221, aborda este tema. Dele vou aqui transcrever um excerto que é muito esclarecedor daquilo que ainda hoje se passa.

Agitou-se, e agita-se ainda a questão da emigração. Há um homem, Mr. Charles Nathan, que leva para Nova Orleães, com bons salários, todas as actividades que se ofereçam.

A emigração, entre nós, é decerto um mal.

Em Portugal quem emigra são os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e um país de fracos e de indolentes padece um prejuízo incalculável, perdendo as raras vontades firmes e os poucos braços viris.

Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a trasbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre. Não é o espírito de actividade e de expansão que leva para longe os nossos colonos, como leva os ingleses à Austrália e à Índia; mas a miséria que instiga a procurar em outras terras o pão que falta na nossa.

Em Portugal, a emigração, tomando o rumo dos países estranhos, contraria a necessidade urgente de regularizar interiormente uma emigração de província a província.

Em Portugal, a emigração não significa ausência – significa abandono. O inglês, por exemplo, vai à Austrália e à América fazer um começo de fortuna – para voltar a Inglaterra, casar, trabalhar, servir o seu país, a sua comuna, trazendo-lhe o auxílio da vontade robustecida, da experiência adquirida, do dinheiro ganho; para Portugal, o emigrante que volta, provido de boa fortuna, vem ser um burguês improdutivo, uma inutilidade a engordar.

Enfim e emigração é má, o Sr. Nathan funesto. Somente o nosso pesar é que o Sr. Nathan, em lugar de alguns centenares dos nossos – não nos queira levar a nós todos. Porque partimos já, sem hesitação, em massa. Fugimos das cebola do Egipto. E, mais felizes do que os israelitas, temos em lugar do incerto milagre do mar Vermelho – os excelentes vapores da Liverpool and Mississipi Stream Campany.

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