As sociedades mudam
(Publicado no semanário O DIABO em 13-03-2018)
Tudo na Natureza sofre ou beneficia de alterações, como o dia e a noite, as quatro estações, as marés, o clima, etc. Também as sociedades têm tido mudanças, embora lentas devido à resistência gerada por hábitos e tradições.
Na Arábia Saudita, o rei de 82 anos e o filho, Mohammed bin Salman, de 32, estão a fomentar grandes mudanças na sociedade, acabando com tradições muito arreigadas e que destoam no mundo actual. As mulheres passaram a poder mostrar a cara descoberta em público e a obter carta de condução de automóveis e estão em curso novas ideias mais ao tom de costumes ocidentais.
Também a África, para se defender das confusões das lutas político-partidárias, está a pôr fim à limitação de mandatos de presidentes da república, inspirados na solução histórica do Império do Meio em que a China, com tal sistema, teve grande poder internacional e um desenvolvimento da economia e da ciência da sua época, sendo uma referência histórica muito citada.
Em África, doze países, por circunstâncias diferentes, estão com condições propícias para os seus presidentes se perpetuarem no poder ao exemplo da China: Argélia, Camarões, Guiné Equatorial, Ruanda, Uganda, Burundi, Gabão, Congo, Togo, Zâmbia, Quénia e RDCongo. Estão inspirados no regime chinês e, porque não dizer, nas monarquias europeias.
A continuidade dos detentores do poder pode ser propícia a projectos e planos sustentáveis durante vários anos, com mais facilidade quando o poder não saltita, como uma caranguejola, segundo interesses oportunistas e variáveis por mero capricho. O mosteiro da Batalha que demorou 176 (1387 a 1563) anos a construir seria impossível no actual regime português. O mesmo quanto aos Jerónimos, cuja construção foi iniciada em 1501 e terminou em 1601.
Mas a continuidade, embora tenha vantagens para o desenvolvimento de estratégias sustentáveis, pode ter o inconveniente de o poder ser desempenhado por pessoa incapaz, fechada nas suas próprias ideias obsoletas, como aconteceu no Zimbabwé. Daí merecer divulgação o exemplo dado pela Arábia Saudita em que o regime do Rei Salman de 82 anos é mais aberto do que se pensa e, com o seu filho de 32, estão a mudar o país a velocidade surpreendente desenvolvendo projectos de modernização que superarão o fim da era do petróleo, que tem sido a principal riqueza nacional mas que está a perder valor. Este caso faz lembrar o nosso rei D. João I que, com o seu filho o infante D. Henrique, deram origem à época de maior esplendor de Portugal. Houve ideias estudos, planos, projectos e realizações consequentes e devidamente coordenadas que foram exemplares.
A democracia, contra toda a espectativa, em vez de ser o poder do povo, é na realidade o poder do chefe de partido que escolhe os candidatos a deputados de entre familiares, amigos, cúmplices e coniventes, os envolvem numa lista em que o povo, às cegas, coloca a cruz do seu próprio calvário, convencido de que é ele que elege os deputados, por pressão de promessas intencionalmente falaciosas que, só por mero acaso, algumas terão realização. E os que forem para o Parlamento, perdem a quase totalidade do tempo em jogos florais de mera propaganda, indiferentes aos interesses dos eleitores para o crescimento da economia e melhoria da qualidade de vida dos mais desfavorecidos.
Os pecados da democracia, tal como existe em muitos estados estão a levar ao regresso de regimes anteriores que se mostraram mais desejados. O Império Chinês está a ser inspirador de muitos países e, em Portugal, o Estado Novo está a ser recordado, com saudade, por muitas pessoas. Por exemplo, quando se fala da educação, muitos cidadãos recordam-se de que cada aldeia tinha uma escola primária com professor que dialogava com os pais dos alunos e, assim, fazia com que a proximidade contribuísse para um resultado benéfico para alunos e para as famílias.
António João Soares
6 de Março de 2018
terça-feira, 13 de março de 2018
AS SOCIEDADES MUDAM
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terça-feira, 16 de julho de 2013
PORQUE SÓ FALAM ???
O professor João César das Neves, como é seu costume, elabora reflexões oportunas, perspicazes e profundas sobre pormenores da actualidade que escapam à generalidade das pessoas. Transcrevo o seu artigo de opinião publicado ontem:
Necessidade de falar
Diário de Notícias. 15/072013. Por JOÃO CÉSAR DAS NEVES, naohaalmocosgratis@ucp.pt
Quanto menos se sabe de um assunto, mais se fala dele; e a veemência cresce com a incerteza e a insegurança. Gostamos de conversar sobre amor, saúde, negócios, desporto e política, precisamente aquilo que menos controlamos. Afinal são esses os temas dos horóscopos...
No meio de uma crise socioeconómica, as coisas agravam-se. É espantosa a quantidade de oráculos férreos e afirmações definitivas em temas que todos, incluindo o orador, sabem ser fluidos e controversos. É o próprio sofrimento da realidade que impele a necessidade de falar, substituindo a objectividade pelo magro conforto da retórica.
Quando alguém sofre, para mais injustamente, as suas palavras ganham peso especial. Por isso os maiores disparates passam por sabedoria na boca de vítimas. No aperto e na confusão, teorias mirabolantes justificam direitos insustentáveis, concedendo ao seu autor credibilidade indiscutível. Assim o debate sobe de tom, com afirmações drásticas em assuntos ignorados.
Um truque habitual na elaboração de temas desconhecidos é o uso de postulados simples, que a própria retórica torna indiscutíveis. Por exemplo, todo o País sabe que a classe política é uma vergonha. O que isso significa é difícil de compreender, pois todas as gerações sempre o repetiram, e os políticos só são louvados depois de mortos. Serão Passos e Seguro piores do que Cavaco e Soares? Merkel e Hollande? Kohl e Mitterrand? O insulto foi igual em todos.
Esse desprezo pela classe política tem a enorme utilidade de explicar a situação sem sujar as mãos na confusão da crise. Não se fala da realidade, mas do discurso sobre a realidade. A isto junta-se um truque elementar: todos gostam de um bom paradoxo; por isso é quase irresistível acreditar que o País sofre não da doença, mas da cura. Porque é que um político faria uma coisa dessas, para mais sem notar, fica sempre omisso. Mas, afinal, nesta vergonha até nem admira. O que interessa é que assim se pode ignorar totalmente a economia, limitando os argumentos ao circo da classe política que, como toda a gente sabe, é uma vergonha. É espantosa a quantidade de pessoas que falam da crise sem nunca referir a dívida esmagadora, as distorções produtivas, ou seja, a crise. A recessão é económica, mas não se discute economia; só política.
Alguns argumentos são contraditórios, sem o empolgado tribuno se dar conta. Muitos empresários queixam-se amargamente que os ministros, sem perceberem nada de empresas e mercados, tomam medidas que as destroem.
Quem o diz, por muito verdade que tenha (e infelizmente tem), não se dá conta de que está a cair no mesmo erro que denuncia, precisamente ao fazê-lo. Porque as actividades governativa e legislativa são também muito difíceis e complicadas, pelo menos tanto quanto as empresas e mercados. E os gestores e agentes económicos sabem tanto ou menos delas do que os políticos sabem de economia. Assim, ao criticarem a influência que as leis têm na sua acção, atribuindo-a à ignorância da classe política, o analista de café mostra uma ignorância pelo menos igual à que critica.
Mas será este paralelo justo? Estão economia e sociedade ao nível da política? Não se pode dizer que o Estado tem a influência e a sociedade é vítima, pois todos vemos como o poder é frágil e como, em democracia ou não, os governos dependem desesperadamente do apoio das forças sociais. Por outro lado, existe uma ilusão de óptica neste argumento. A sociedade é muito maior do que o cantinho da conversa. O facto de esta empresa ou de este mercado serem prejudicados não prova que a política não sirva o todo. Aliás, a experiência recente mostra-o abundantemente, quando durante décadas os governantes pareciam ajudar os múltiplos cantinhos da sociedade, arruinando o País. É, aliás, por isso que é preciso agora prejudicar empresas e mercados para equilibrar a sociedade.
Nos momentos difíceis, as pessoas sentem uma irreprimível necessidade de falar, normalmente com mais veemência do que juízo. A vantagem desta compulsiva ânsia de dizer disparates é que "cão que ladra não morde".
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segunda-feira, 1 de julho de 2013
MANIFESTANTES, ESTÃO USANDO VOCÊS
Pelo Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior
NOTA: Certamente, haverá quem aceite esta lógica e quem a recuse. Mas vale a pena cada um observar bem estes meandros e, depois, tirar as suas próprias conclusões.
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sábado, 7 de abril de 2012
A crise obriga a pensar
Transcrição de pequeno texto escrito por Ayn Rand, (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos a meio da década de 1920), e que, hoje, deve ser devidamente interpretado. Seguem-se-lhe referências complementares.
Sociedade condenada
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada;
Quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores;
Quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você;
Quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício;
Então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".
Seguem-se referências a outros textos que ajudam a pensar na crise que nos oprime:
Todos sabem que Portugal não é a Grécia, mas convém ver as diferenças significativas sem olhar apenas para a antiga cultura grega e os descobrimentos portugueses, mas analisando as causas do problema actual. E depois concluir se, realmente e em aspectos estruturais e essenciais, a Situação de Portugal é muito diferente da Grécia'. Será que se pode concluir que Somos assim tão diferentes dos gregos?
A Situação na Grécia resultou de 'legado de anos de políticas irresponsáveis' e entre nós quais foram as causas?
E, depois de muita meditação, talvez se possa dar resposta à pergunta Porque já se fala num segundo resgate para Portugal?
E como se compreende que governantes em funções de alta responsabilidade façam afirmações aparentemente oníricas como a que manifesta o desejo ou faz a promessa de obter Ligação de Sines em bitola europeia até 2014, pois parece não ser viável a médio prazo como diz o artigo Linha Sines-Badajoz não tem continuidade no lado espanhol.
E como se compreende que, na actual situação em que deve haver união de esforços e de energias de todos os sectores nacionais, se constate a discordância da oposição em relação a desejos ou «promessas» de soluções para variados problemas, por vezes em forma de reparos muito sensatos e com sentido de Estado? Certamente tais divergências mostram que o Governo se subordina incondicionalmente a pressões estranhas, esquecendo-se de dialogar mais intensamente com os partidos nacionais, os quais, como manda a lógica, devem ser melhores defensores dos interesses nacionais do que os líderes de países estrangeiros que, racionalmente, sobrepõem a tudo os seus próprios interesses nacionais.
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A trapeira do Job
Com a merecida vénia, transcrevo uma descrição, muito interessante e agradável de ler, da evolução da nossa sociedade desde há um século até ao desaguar na actual crise social, económica e financeira, escrita pelo conceituado advogado José António Barreiros.
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado, e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça.
Foram anos em que o Campo se tornou num imenso resort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.
O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios, e que os víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.
Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais, claro, e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo, e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermos-nos ao dinheiro, enforcarmos-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim-de-semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
A ordem criminosa do Mundo
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Gerações à rasca
Transcrição de texto (Recebido por e-mail de amigo em 08-12-2011)
UM DIA, ISTO TINHA DE ACONTECER
Mia Couto
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
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terça-feira, 25 de outubro de 2011
Novos mecanismos de participação democrática
Há muito que aqui é expresso que os problemas da sociedade actual não se resolvem com mudanças de pessoas, mas exigem alterações profundas na estrutura social e dos mecanismos de interacção entre a população e os seus mandatários, em termos verdadeiramente democráticos. Há século e meio que não aprece uma doutrina social com força para ser seguida. Porém a de então não foi praticada com respeito democrático pelas pessoas. Será desejável que a nova Plataforma para o Crescimento Sustentável, agora anunciada tenha mais êxito, para bem da humanidade. As linhas gerais referidas na notícia que se transcreve parecem positivas e merecem o apoio de todos para terminarem num manifesto com programa viável e dignificante para o ser humano, em geral, com justiça social, civismo, ética e valores indiscutíveis.
Moreira da Silva e Balsemão defendem “novos mecanismos de participação”
Público. 25.10.2011 - 00:15 Por Lusa
Os sociais-democratas Jorge Moreira da Silva e Francisco Pinto Balsemão, que fazem parte da nova Plataforma para o Crescimento Sustentável, defenderam nesta segunda-feira a necessidade de serem criados “novos mecanismos de participação” democrática.
“Num momento de crise económica e de crise de valores no contexto europeu, é fundamental encontrar novos mecanismos de participação, de representatividade, de envolvimento dos cidadãos, para que a resposta não venha a ser uma deriva antidemocrática”, defendeu Jorge Moreira da Silva.
Durante a apresentação da Plataforma para o Crescimento Sustentável, à qual preside, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, Jorge Moreira da Silva sustentou que “a insatisfação dos portugueses com a sua democracia é algo que está atestado, está verificado” nos estudos que têm sido publicados.
“Queremos levar a democracia mais longe”, afirmou.
O vice-presidente do PSD apresentou a Plataforma para o Crescimento Sustentável como uma associação cívica sem filiação partidária e sem fins lucrativos que defende, entre outros princípios, “mais liberdade aos cidadãos e menos influência ao Estado”, a promoção da “flexibilidade e segurança no trabalho” e “uma economia verde”.
Esta associação “já tem seis grupos a trabalhar”, conta mais de 300 associados e pretende divulgar “um relatório para o crescimento sustentável até ao final do primeiro semestre do próximo ano, identificando medidas estratégicas e concretas para libertar este potencial de crescimento”, adiantou.
No seu discurso, o fundador do PSD Francisco Pinto Balsemão, presidente do Conselho Consultivo da Plataforma para o Crescimento Sustentável, defendeu igualmente a necessidade de serem encontradas “novas vias de participação democrática”, em defesa da liberdade.
“Se queremos preservar a liberdade, temos de encontrar novas vias de participação democrática e de cidadania que nos protejam do crescente predomínio da segurança como prioridade e da consequente devassa da nossa privacidade”, considerou.
O presidente do grupo Impresa e antigo primeiro-ministro apontou a Plataforma para o Crescimento Sustentável como “um instrumento para a preservação da liberdade da pessoa humana, o que implica a descoberta de novas vias, não apenas políticas, mas também económicas e, sobretudo, de justiça social”, justificando com isso o facto de ter aderido a este projecto.
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sábado, 3 de abril de 2010
Bullying, escolas, família e sociedade
Transcrição, seguida de NOTA final.
"Entre mundos"
Jornal de Notícias. 03-04-2010. Por Rui Moreira
A propósito da minha crónica sobre o "bullying", recebi a mensagem de uma professora que dizia que "se a maioria das pessoas frequentasse as escolas onde há problemas sócio-económicos ficava aterrorizada."
Ainda que na crónica atribuísse responsabilidade a todos nós pelos problemas que ocorrem na escola, é possível que não tenha deixado bem esclarecida a minha posição que, no essencial, coincide com a desta professora. Dizia há quinze dias que "a sociedade do futuro depende, em grande parte, dos valores que a escola transmite aos alunos", mas não é menos verdade que a escola do presente está condicionada pela sociedade em que se integra e, conhecendo relativamente bem algumas escolas públicas ditas problemáticas, sei como a tarefa dos professores é titânica, e muitas vezes mal compreendida e mal aceite por parte dos pais.
É difícil ensinar e motivar crianças mal alimentadas, desatentas, vítimas ou testemunhas de casos de violência doméstica e que vivem no meio de dramas sociais e familiares diários. E é tanto ou mais difícil transmitir-lhes valores essenciais de sociabilidade e de disciplina quanto é certo que não cabe à escola, mas a outras entidades, e à sociedade em geral, proteger estas crianças contra esses ambientes inseguros e degradantes, o que nem sempre faz eficazmente, ou a tempo.
É indispensável que a escola seja para estas crianças um local de paz e de ordem, um refúgio fiável, onde encontram protecção, mas onde têm, também, de respeitar e cumprir regras de disciplina, de respeito e de sã convivência. A escola deve ser capaz de as resguardar da violência do mundo onde são criadas, e de lhes transmitir os ensinamentos que as podem vir a libertar da miséria social e moral em que vivem, cortando assim o círculo da exclusão social a que, de outro modo, estarão condenadas.
Hanna Arendt dizia que a escola constitui um "mundo entre mundos", a quem cabe transmitir o saber e preparar a criança para transitar do "seu" mundo privado, muitas vezes social e economicamente adverso, para o mundo dos adultos e para uma sociedade de gente que se quer responsável e com valores de respeito e de cidadania. Neste sentido, a escola deve ser "fechada", evitando estabelecer pontes em excesso com o mundo exterior que permitam a reprodução dentro dela de modelos de violência e de falta de regras, tendo ao mesmo tempo que transcender as suas atribuições tradicionais para, sem se sobrepor aos pais e às famílias a quem cabe naturalmente a tarefa de educar e formar, criar condições para o exercício das funções que lhe são próprias, assegurando uma mudança no quadro de valores destas crianças que lhes permita integrar o mundo colectivo. O que supõe, naturalmente, que também esteja atenta e seja capaz de dar o grito de alerta quando uma dessas crianças está em risco, porque isso faz parte do cuidado que elas merecem, e porque só assim, como também diz Arendt, poderão vir a ter, um dia, condições para "mudar o mundo".
NOTA: Há dias, foi-me chamada a atenção por um colega bloguista que discorda das críticas avulsas e pouco rigorosas, preferindo as que abordam toda a dimensão do tema, incidindo nas suas causas determinantes porque é nelas que devem incidir as medidas terapêuticas para revitalizar a sociedade nacional. Compreendo a sua ideia e espero que surja um pensador, com saber teórico e bem informado das realidades, que elabore um estudo com tal dimensão (largueza e profundidade).
Mas penso que essa análise de diagnóstico com vista a posterior terapêutica só será eficaz se, entretanto, a população for incentivada à procura de dados parcelares sobre as realidades, a meditar naquilo que lhe é possível conhecer, a raciocinar livre de pressões interesseiras, vendo as diversas faces do poliedro e, dessa forma, ter opinião própria, poder confrontá-la com outras e poder um dia compreender a teoria de tal filósofo.
Nestas condições, não hesito em fazer transcrições de textos em que encontro dados que merecem ser tidos em consideração nas reflexões sobre os diversos temas, estando ou não em concordância total ou parcial com eles.
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A. João Soares
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terça-feira, 16 de março de 2010
Pais educadores e alunos
Depois de ter aparecido em público de forma chocante a violência e indisciplina nas escolas aqui reflectida em alguns posts (Valores éticos são pilares da sociedade, Ressuscitar os valores éticos, Futuros cidadãos no Portugal de amanhã, Professores educadores), vale a pena referir a notícia do JN de hoje «Professor do ano diz que "pais, às vezes, demarcam-se das suas funções"».
Nela é divulgado que o professor de Física Alexandre Costa de 45 anos, docente há duas décadas, recebeu hoje o Prémio Nacional de Professores, numa cerimónia realizada na Universidade de Évora e presidida pela ministra da Educação, Isabel Alçada.
No seu discurso fez várias afirmações que merecem ser meditadas e aplicadas na prática.
"Os meus alunos e eu temos uma relação de grande empatia no trabalho, mas não é de amizade. Não sou amigo no sentido em que eles são amigos dos seus colegas adolescentes. Sou tão amigo quanto um pai ou um educador pode ser", afiançou.
Confessou manter uma relação de "grande empatia", mas não de amizade, com os alunos e defendeu que pais e docentes não se devem demitir das suas funções educativas.
Considera importante que estes papéis não se confundam e que pais e encarregados de educação não se demitam do papel que têm como educadores.
"A educação não se pode isolar da sociedade", alertou, sustentando que um dos "maiores problemas" actuais, neste âmbito, é a existência de "uma certa demissão das pessoas" relativamente ao que são "as suas funções".
"Os pais, às vezes, demarcam-se de ser pais e da sua responsabilidade na educação, transferindo isso para a escola" e, noutros casos, é o professor que "está mais preocupado em ser amigo dos alunos do que em ser seu professor".
"Há um contexto social no seu todo que leva a que, neste momento, o ensino tenha algumas deficiências".
Este cenário, defendeu, só se ultrapassa através da "educação da própria sociedade" e da "redescoberta" do que é "ser pai, professor ou aluno" e das "regras básicas de convivência entre as pessoas".
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A. João Soares
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segunda-feira, 4 de junho de 2007
A erosão familiar e a pobreza social
Extraído do semanário Expresso, por ter interesse para avaliar um aspecto actual da sociedade ocidental, a pobreza, e mostrar um factor causal pouco relacionado com um problema que é muito lamentado mas pouco situado na sua correlação com este aspecto.
Incómoda abertura intelectual
jcespada@netcabo.pt
Na América, há 10 anos que deixou de ser controverso afirmar que existe uma forte correlação entre erosão da família e aumento da pobreza. A notícia está a chegar à Europa.
Duas revistas publicadas na última semana trouxeram em capa e abriram a edição com uma referência à família. Uma delas é caseira - ‘Nova Cidadania’ - e o título ‘O Estado em guerra contra a família?’ (nº32, Abril/Junho) produziu ondas de sarcasmo habitual: lá vêm os conservadores do costume. Outra, porém, é estrangeira e de indisputada reputação liberal: ‘The Economist’, de Londres. O artigo ‘America’s marriage gap’ tem chamada de capa e abre a edição de 26 de Maio-1 de Junho.
O artigo de ‘Nova Cidadania’ é uma recensão de André Azevedo Alves (mestre pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e doutorando na London School of Economics) a um livro recente do Institute of Economic Affairs de Londres: ‘The War Between the State and the Family’, de Patrícia Morgan. Ele dá sobretudo conta de três fenómenos interligados: a erosão da família biparental em Inglaterra ao longo das últimas décadas; a estrondosa correlação entre famílias monoparentais e pobreza, sobretudo das crianças; e, finalmente, a sucessão de políticas públicas antifamília biparental, com caricato culminar na sua fortíssima penalização fiscal.
O artigo de ‘The Economist’ refere-se a um país em que este assunto já foi abertamente discutido há 10 anos - a América. Por essa razão, deixou de ser sequer controverso afirmar que existe uma forte correlação entre erosão da família e aumento da pobreza. Toda a gente viu os números e acabou por aceitá-los. Isso está a gerar um incrível movimento espontâneo de inversão da tendência anterior: o casamento sobe e os divórcios descem entre os jovens que frequentam a universidade; entre os que não frequentam, prolonga-se a tendência anterior.
Acontece que “uma larga maioria - 92% - das crianças cujas famílias ganham mais de 75 mil dólares por ano vivem com os dois pais (incluindo padrastos). Na base da escala de rendimentos - famílias com menos de 15 mil dólares por ano - apenas 20% das crianças vivem com dois pais” (pág. 21). Este «marriage gap» (o título de capa) pode ser hoje o factor principal da crescente desigualdade de rendimentos na América.
A acreditar na experiência passada, as coisas começam na América e dez anos depois chegam à Europa. Os dois artigos citados ilustram isso mesmo. Não se trata de adivinhar o futuro. Basta ter abertura intelectual para olhar os factos e aceitar ser desafiado por eles. Em termos de reputação, é um bocado incómodo. Mas a alternativa é tremendamente aborrecida.
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A. João Soares
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sábado, 12 de maio de 2007
Como eram as nossas aldeias?
Transcrevo este trabalho sugiro a consulta do link que vai no final, em homenagem aos muitos visitantes do interior, principalmente da Estremadura, que por aqui passam. Hoje, é difícil de compreender como se vivia nas aldeias do interior, principalmente do mais profundo.
Este artigo foi publicado no JORNAL REGIÃO DE LEIRIA, na edição de 10 de Maio de 2007 e é da autoria de MOISES ESPIRITO SANTO (Sociólogo e professor Catedrático da Universidade Nova de Lisboa). Como o tema está na ordem do dia e na nossa região as aldeia estão quase todas mortas, resolvi transcreve-lo e também porque o tema é caro ao António Delgado e já foi motivo de postagens no seu Ecos e Comentários.
"Como explicar aos jovens de hoje o que eram as aldeias portuguesas há quarenta anos? Por algumas fotografias e sequências de filmes podemos ver casas, ruas, pessoas e cenas agrícolas, mas não mostram aquilo que fazia com que uma aldeia fosse um microcosmos da cultura, um espaço fortemente integrador com um intenso poder de investimento afectivo, e um estreito círculo de solidariedade (com muita desconfiança relativamente aos «de fora»).
Eram um mundo de trabalho, de paisagens agrícolas miscigenadas de hortas, vinhas e olivais com árvores frondosas à beira das estradas; um ambiente de cheiros a fumo de lareira, a feno colhido, a palha moída ou a mosto; miúdos a correr e a jogar; patuscadas nocturnas da rapaziada; abundante criação musical e poética; histórias de vida contadas na adega; mexericos de velhas; olhares furtivos à passagem dum estranho; forte controle social. A cultura aldeã dava para vários tratados sociológicos. Nos anos 60, grupos de estrangeiros de classe média passavam parte das férias em Portugal a observar o sistema social aldeão; mas não só as aldeias «típicas»: qualquer aldeia. Todas eram primorosas criações da cultura rural: casas e varandas convidativas, elegantemente modestas com briosos ajardinamentos, caminhos de terra tortuosos e sombrios propícios ao devaneio onírico e aos medos nocturnos, conversas à porta e à janela, uma forte ligação casa-trabalho-rua e muito sentido de hospitalidade para que os «os de fora» fiquem com «boa impressão da gente».
A criação musical e poética era simplesmente notável. Podemos ver uma amostra no livro «Cancioneiro de Entre Mar e Serra da Alta Estremadura», de José Ribeiro de Sousa (editado pela C.M. de Leiria, 2004). O autor, sem sair da Costa de Baixo (uma «metade» da Costa, a outra é Costa de Cima, da freguesia de Maceira) coligiu, desde os anos 40, 1.027 peças de música popular e respectivos poemas, sacros e profanos, para as mais variadas situações da vida: ciclos do pão, do vinho, do azeite e do pinhal; cantares da água, das fontes e do rio; cantigas da lavra, do semeador, da sacha, da rega, das colheitas e das eiras; ciclo festivo anual; cantares das profissões; loas de romaria, cantigas de namoro; cantares sobre a toponímia local, sobre a vida familiar e social, cantigas do bom e de mau humor e da reinação, romances e xácaras… só para dar um exemplo do que o meticuloso autor deixou para a posteridade ao longo de 1.251 páginas em papel bíblia belamente encadernadas. «Mas [diz o autor] a Costa de Baixo em fins do primeiro quartel do séc. XX era muito diferente da actual e tinha um aspecto impossível de reconstituir. A quase totalidade das casas ditas ‘rabudas’ (com alpendre ou varanda) foi demolida; as eiras e casas anexas, as adegas e lagares, palheiros e barracões levaram o mesmo caminho. As grandiosas árvores multicentenárias que bordejavam os caminhos foram cortadas. As típicas ruas foram alargadas e perderam a graça das sebes verdes. Houve uma substituição quase total do ‘fácies’ do belo lugar de então». E, digo eu, isto é válido para todo o País rural. Um mundo perdido.
De facto, a vida era cantada. Cantava-se em todas as tarefas dos campos e da casa, para esquecer o tempo, para encurtar os caminhos, para animar os acompanhantes e para vencer as agruras. As mulheres cantadeiras (eram sobretudo elas que cantavam) tinham mais procura junto dos fazendeiros pelo bom serviço que faziam de animar o rancho -. aliás, a poesia e a música aldeãs, tal como os contos e os rimances são criações das mulheres (já os instrumentos musicais são invenções de homens).
E, hoje, o que é uma aldeia? Um pequeno aglomerado de habitações - cada vez mais dispersas entre campos abandonados. Trabalho agrícola? Nada. Vida social? Nada. Criação cultural? Nada. Ninguém nas ruas. Solidão de fugir.
Li há dias nos jornais que, segundo um inquérito europeu, os portugueses são, hoje, o povo mais triste da Europa. Porquê? Para responder cabalmente a isso teríamos de começar pelas cidades".
Posted by Jorge Casal in ALCOBAÇA: Gentes e Frentes
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A. João Soares
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Etiquetas: sociedade
