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terça-feira, 22 de junho de 2010

Família dos combatentes

Sentimentos de viúva e de neta de um herói, nas «Comemorações do 18ª Encontro Nacional de Combatentes» em Belém

Palavras da senhora D. Maria do Carmo Oliveira e Carmo, viúva do Cte. Jorge Oliveira e Carmo

Esta foi a narrativa breve de um acto de sacrifício e coragem de um português que morreu, conscientemente, pelos seus valores.

Um homem que, além de fiel aos valores transcendentes que justificam desde tempos imemoriais “morrer pela pátria”, era também filho, pai e marido.

É nesta perspectiva que quero aqui, com a memória da minha história, dirigir-me às Famílias, sobretudo às Mães e Mulheres que, como eu, vêem a vida bruscamente, brutal e definitivamente mudada.

Somos as mulheres e as famílias, dos que escolhem o ofício de servir o país pelas armas; as que temos que viver uma angústia diária, silenciosa e discreta quando eles partem para missões de risco. Eles contam connosco, pensam em nós, e também servem por nós.

Foi o exemplo de fidelidade e coerência aos valores espirituais, vividos até ao limite da vida a grande Herança que a nossa família aqui presente recebeu de um desses homens.

Esta é a nossa herança: crença nos valores espirituais, difícil e duradoura experiência, partilha tranquila de um sacrifício muito nosso e muito rico.

Uma herança que só faz sentido porque são os valores espirituais que fazem a diferença e a dignidade dos homens; e, porque acreditamos no futuro destes valores, sabemos que feitos como o do Jorge Oliveira e Carmo orgulham todos os portugueses, e já fazem parte das páginas que honram a História de Portugal.

E é esta herança que queremos – a minha Família e eu aqui presentes – oferecer hoje à Nação, neste dia de Portugal, partilhando-a com todos os nossos compatriotas, especialmente com todas as Mulheres Portuguesas.

Que Deus nos abençoe a todos.

10 de Junho de 2010


Mensagem lida por uma neta de doze anos do Cte. Jorge Oliveira e Carmo durante a missa por intenção de Portugal e de sufrágio pelos que morreram ao Serviço da Pátria, celebrada na Igreja de Sta. Maria de Belém, nos Jerónimos, em 10 de Junho de 2010.

“Não conheci o meu avô, mas sei o quão fantástico ele era.

Sei que ao ir para a guerra só estava a pensar no seu país. E também sei que, mesmo não estando vivo, nunca será esquecido.

Sim, eu não conheci o meu avô, mas conheço a minha avó e admiro-a muito, pois é difícil ir para a guerra e combater por aquilo que se ama, mas ainda é mais difícil ficar cá enquanto alguém que nós amamos do fundo do coração partiu para lutar pelo seu país.

Pelo seu acto de coragem o meu avô trouxe lágrimas aos olhos de muitos portugueses. E, claro, também aos meus.

Obviamente ficámos todos tristes com a morte de Jorge Oliveira e Carmo, mas sempre que ouvirem a história de como ele morreu ao tentar defender o seu país, não chorem, sorriam.

Sorriam de orgulho, sorriam por respeito, sorriam porque tenho a certeza que ele não queria lágrimas nos vossos olhos.

O que ele queria? Deixar Portugal orgulhoso.

E na minha opinião a sua missão foi cumprida.”

É esta a herança de esperança no futuro que queremos – a minha família e eu aqui presentes – oferecer hoje à Nação, neste dia de Portugal, partilhando-a com todos os nossos compatriotas, especialmente com todas as Mulheres Portuguesas.

Que Deus nos abençoe a todos.

Imagem da Internet

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Espírito de missão e ética militar

Intervenção do Presidente da Comissão Executiva das «Comemorações do 18ª Encontro Nacional de Combatentes» em Belém, Almirante Francisco Vidal Abreu

Combatentes

Combatentes de ontem, de hoje e de amanhã

Portugal continua e continuará sempre a precisar de vós. Quem, um dia, jurou perante o estandarte nacional, servir a Pátria, mesmo com sacrifício da própria vida, certamente está disponível para de novo lutar por um Portugal melhor. Não com armas na mão, porque não é disso que se trata. Mas com o mesmo espírito de dádiva e entrega, lutando por princípios e valores que tornem a nossa sociedade melhor e mais digna, para que tenhamos orgulho na herança que deixamos aos nossos filhos e netos.

Combatentes

Pelo 17º ano consecutivo, num verdadeiro exercício de cidadania, encontramo-nos junto a este monumento para comemorar o dia de Portugal. Porque a forma mais nobre de o fazer será homenagear todos quantos, ao longo da nossa história, chamados um dia a Servir Portugal, tombaram no campo da honra, em qualquer época ou ponto do globo. E não se julgue que estes sacrifícios terminaram. Já se combateu para alargar fronteiras, já se combateu para manter fronteiras, hoje combate-se para defender princípios civilizacionais, para garantir a liberdade.

Por isso estas homenagens fazem sentido e devem continuar a ser feitas. Homenagear os combatentes no Dia de Portugal é mostrar que temos orgulho na nossa História e em sermos portugueses.

Mas nesta homenagem não esquecemos também os deficientes das Forças Armadas, nem todos os que dão o seu melhor pela causa dos combatentes. Aqui fica pois uma palavra de agradecimento e estímulo não só à Liga dos Combatentes, mas também a todas as Associações de Combatentes, sem o apoio das quais esta cerimónia não seria possível.

Combatentes

A melhor forma de honrar todos os que deram a vida por Portugal é meditar junto a este sublime monumento se os nossos actos, em cada dia que passa, são dignos do sacrifício que todos os que têm os seus nomes inscritos nestas lápides, frente a vós, um dia fizeram, por Portugal. E que melhor lugar para esta meditação que este, frente à “Chama da Pátria”, que nunca deixaremos apagar, com o mar como respaldo, esse mar de tantas glórias, de tantos sacrifícios, que já foi futuro e que tem que voltar a ser futuro.

Combatentes

Porque a memória dos mais velhos é traiçoeira e os mais novos ainda têm pouco em memória, decidimos de novo, este ano, homenagear todos os que tombaram pela Pátria, através de um deles, um português maior, um homem com H grande, cujo exemplo de conduta, de valores e de virtudes não devemos esquecer e manter como referência – o Senhor Comandante Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo, morto em combate em 18 de Dezembro de 1961, nos mares de Diu, então Índia Portuguesa.

Um texto descritivo da sua acção em combate será lido por um oficial que entrou para a Escola Naval menos de um ano depois, em 1962, e teve este herói nacional como patrono de curso. Convido-vos a ouvir este texto no maior silêncio e com o maior respeito. Vão descobrir nele o Portugal nobre, que dá valor à honra e à verdade, corajoso, e que continua a existir, por muito que nos custe a acreditar. Cabe a nós fazê-lo despertar, para que não mais se tenha vergonha de falar em Pátria ou em Patriotismo. Basta quebrar o silêncio dos bons. Basta lembrarmo-nos de que somos perto de um milhão. E acreditaremos que esta tarefa é possível.

Combatentes

Todos nós, quando estávamos em missão, tínhamos sempre alguém que nunca nos esquecia e que também sofria, embora de forma diferente, a nossa decisão de ter aceite ser combatente. A nossa família, mas muito particularmente as nossas mães e as nossas mulheres, no seu silêncio, sempre de forma discreta, viviam sofridamente, certamente com enorme angústia, o dia-a-dia dos seus filhos ou maridos. E sempre o fizeram e continuarão a fazer porque sabem e sentem que a família é um dos pilares essenciais de uma sociedade de princípios e valores.

Por isso, também hoje e aqui, queremos homenagear a Mãe e a Mulher do combatente, fontes da sua força, referências para a sua acção e importantes pilares da família militar, tão esquecida, tão ignorada, por uma teimosa recusa em aceitar o seu importante papel. Ela constitui parte do segredo da estabilidade emocional necessária ao combatente. Ela é a segurança dos vivos, o imprescindível apoio dos que ficaram deficientes, a única alternativa para cuidar dos filhos dos que, em missão, antes do tempo já nos deixaram.

Esta homenagem à Mãe e Mulher do combatente, neste dia de Portugal de 2010, será feita através da presença nesta cerimónia da Senhora Dona Maria do Carmo de Oliveira e Carmo, viúva do Senhor Comandante Oliveira e Carmo, que hoje homenageamos, e que vos vai falar. Oiçam as suas palavras. Meditem nelas e no seu significado. É que as mães e mulheres dos combatentes, pelo papel essencial e insubstituível que desempenham na construção e equilíbrio da família, também muito podem fazer por um Portugal melhor, que fale verdade, um Portugal de princípios, e de dignidade, um Portugal de esperança, de valores, de ética, e de que todos nos possamos orgulhar. Por isso, também é tão importante contarmos convosco.

Combatentes de ontem, de hoje e de amanhã

Termino como comecei. A vossa missão não acabou. Portugal continua e continuará sempre a precisar de vós. Saibamos honrar os que se sacrificaram por Portugal.

Viva Portugal
Lisboa, 10 de Junho de 2010

Imagem da Internet

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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Irresponsabilidade dos políticos

Conversava serenamente com o meu amigo CG acerca da notícia «PR sem sanção se recusar Estatuto» dos Açores (que deve ser de leitura obrigatória para perceber estas reflexões), e ressaltava a incompetência do legislador que não seguiu um método de trabalho semelhante ao referido no post «Pensar antes de decidir». Se o legislador tivesse sido cuidadoso na elaboração da Constituição, teria previsto que quando impõe um dever deve definir a sanção correspondente ao seu não cumprimento.

O meu amigo, sem alterar o ambiente cortês e urbano da conversa, começou por dizer que continuo a sofrer de uma ingenuidade antiquada, uma inocência, um idealismo e uma utopia que já não se usam. Argumentou de imediato que não se trata «do legislador», mas de um colectivo, para diluir responsabilidades e evitar que críticas como esta pudessem ferir pessoalmente algum «alto representante» da Nação. A Constituição da República tem como autor a AR, e não um ou outro «legislador».

Depois acrescentou que os ditos «deveres » dos políticos são apenas ideias gerais, muito vagas e apenas indicativas de intenções, porque os políticos têm imunidades (abusivamente extensivas a todos os actos da sua vida), não se podendo assacar-lhes responsabilidades e apenas estando sujeitos ao julgamento político nas eleições seguintes. Têm apenas «responsabilidade política» que nada representa e que equivale a dizer que são irresponsáveis, inimputáveis. Os eleitores, mal esclarecidos e aliciados por propagandas habilidosas, acabam por votar em quem lhes é atirado à cara, chegando a preferir candidatos independentes de passado suspeito em preterição dos partidos tradicionais a que eles pertenciam, como se viu nas últimas eleições autárquicas nos concelhos de Felgueiras, Gondomar, Lisboa e Oeiras (por ordem alfabética). Portanto o julgamento político, não passa de uma falácia virtual.

E assim vai este País, como barco sem leme nem bússola. E, infelizmente, os ventos e as correntes nem sempre puxam para o melhor rumo, que seria o da defesa dos interesses da população não protegida pela sombra dos amigos do Poder.

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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Bom senso morreu

CARO(A) AMIGO(A),

É com muita tristeza que lhe participamos o falecimento de um amigo muito querido que se chamava BOM SENSO…… e que viveu muitos e muitos anos entre nós.

Ninguém conhecia com precisão a sua idade porque o registo no qual constava o seu nascimento foi desclassificado há imenso tempo, devido à sua enorme antiguidade.

Mas lembramo-nos muito bem dele, nomeadamente pelas suas lições de vida como :
«O mundo pertence àqueles que se levantam cedo»
«Não podemos esperar tudo dos outros»
Ou ainda
«O que me acontece pode ser em parte também por minha culpa»
E também …
BOM SENSO só vivia com regras simples e práticas como :
«Não gastar mais do que se tem»
e de claros princípios educativos como :
«São os pais quem decide em definitivo»

Aconteceu que BOM SENSO principiou a perder o pé quando os pais começaram a atacar os professores que acreditavam ter feito bem o seu trabalho querendo que as crianças aprendessem o respeito e as boas maneiras.

Tomando conhecimento que um educador foi afastado por ter repreendido um aluno demasiado excitado na aula, agravou-se o seu estado de saúde.

Deteriou-se mais ainda quando as escolas ficaram obrigadas a obter autorização parental para pôr um penso num doi-doi de um aluno, embora não pudessem informar os pais de outros perigos mais graves incorridos pela criança.

Enfim, BOM SENSO perdeu a vontade de sobreviver quando constatou que os ladrões e os criminosos recebiam melhor tratamento que as suas vítimas.

Também recebeu verdadeiros golpes morais e físicos, quando a Justiça decidiu que era reprovável defendermo-nos de um gatuno na nossa própria casa, enquanto a este último é dada a possibilidade de queixar-se por agressão e atentado à integridade física ...

BOM SENSO perdeu definitivamente toda a confiança e a vontade de viver quando soube que uma mulher, que não alcançou que uma chávena de café quente pode queimar e que desajeitadamente deixou derramar algumas gotas sobre uma perna, recebeu por isso uma colossal indemnização do fabricante da cafeteira eléctrica.

E como certamente saberá, a morte de BOM SENSO foi precedida pelo falecimento:
- dos seu pais Verdade e Confiança;
- da sua mulher Discrição;
- da sua filha Responsabilidade e do filho Razão.

BOM SENSO deixa o seu lugar plenamente a três falsos irmãos :
- «Eu conheço os meus direitos e também os adquiridos»
- «A culpa não é minha»
- «Sou uma vítima da sociedade»
Claro que não haverá multidão no seu enterro porque já não existem muitas pessoas que o conheçam bem, e poucos se darão conta de que ele partiu.
Mas se você ainda se recorda dele e caso queira reavivar a sua lembrança,
previna todos os seus amigos do desaparecimento do saudoso BOM SENSO fazendo circular esta participação…

Senão, não faça nada e ... deixe andar !!!

De autor desconhecido, recebido por e-mail, em formato pps

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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Encontro dos Combatentes, 2008

Transcrição da alocução proferida pelo Sr. Professor universitário Doutor João César das Neves na sessão comemorativa. Não faço qualquer introdução ou nota final, porque o autor é bem conhecido e o texto está perfeito, não carecendo de apreciação minha. O meu sincero bem-haja ao Sr. Professor pela gentileza de ter disponibilizado o texto.

Sessão comemorativa dos Combatentes
Monumento aos Combatentes do Ultramar, 10 de Junho de 2008
João César das Neves

Meus amigos

Estamos aqui reunidos por causa do sangue. É o sangue que aqui nos chama todos os anos. Um sangue longínquo, um sangue de multidão, um sangue de violência. Espalhado por múltiplas terras, ao longo de muitos anos, é este sangue que aqui está reunido neste Monumento. É este sangue que aqui nos reúne neste dia.

Todos os anos vimos aqui falar ao sangue. Todos os anos dizemos palavras a este sangue antigo, distante, múltiplo. Desta vez, em vez de falarmos ao sangue, ouçamos o sangue. Ouçamos o que o sangue tem para nos dizer. Em vez de dizermos os sentimentos que este sangue nos suscita, pensemos no que este sangue diz dele mesmo. O que este sangue nos quer dizer.

1. A grandeza do sangue

Será que o sangue nos fala de coragem? De valor? De heroísmo? Algum, sem dúvida! Mas muito dele, não. A maior parte certamente, não. Algum deste sangue foi derramado em feitos notáveis, actos valorosos, gestos memoráveis. Mas a maior parte não.

Será que o sangue nos fala de colonialismo? Geo-estratégia ? Modelos políticos? Algum, sem dúvida! Mas muito dele, não. A maior parte certamente, não. Algum deste sangue foi derramado por razões ideológicas, propósitos tácticos, consciência mundial. Mas a maior parte não.

A maior parte, certamente, foi sangue que não queria ser derramado, que não concordava com aquela guerra, que não compreendia bem porque estava ali, que não desejava estar ali. Grande parte desse sangue jorrou por azar, por engano, sem vontade. É normal o sangue jorrar contra vontade.

Quando falamos de tanto sangue, em tantos locais e em tantos anos, derramado em condições tão diferentes, por pessoas tão distintas, temos de admitir que a maior parte do sangue não era especial. Sangue de multidão dificilmente é especial. Sangue de tão grande multidão tem de ser sangue comum, sangue normal, sangue de gente como nós.

Se este sangue não nos fala de heroísmo e valor, de colonialismo e ideologia, de que é que ele nos fala, então? Porque razão afinal estamos nós aqui? O que torna tão especial este sangue que todos os anos nos reúne neste lugar, a dizer coisas ao sangue? Qual a grandeza extraordinária deste sangue que, afinal, por ser sangue de uma multidão, não pode ser especial?

O sangue que aqui nos reúne nem sempre nos fala de coragem e de heroísmo, ideologia e sistemas. Mas fala-nos sempre de dever. O que este sangue nos diz, o que este sangue tem de grande, é o dever cumprido. O que há de comum em toda essa enorme multidão é que estava lá. Tinha sido enviada, tinha-lhe sido ordenado e tinha ido. Foi onde tinha de ir e cumpriu o dever que tinha de cumprir. Cumpriu o dever até ao fim. Cumpriu o dever até ao sangue.

Grande parte desse sangue não queria estar ali. Grande parte desse sangue não concordava com aquela guerra, não apoiava sequer o regime que a declarara. Mas estava ali e combatia. Por ser o seu dever. Sacrificava a sua vida. Não porque quisesse sacrificá-la, não porque apoiasse a causa, porque fizesse feitos notáveis, únicos. Simplesmente porque devia ali ir e tinha de cumprir o seu dever. E foi. E cumpriu. Até ao fim. Até ao sangue.

Esta é a grandeza deste sangue. Esta é notável elevação deste sangue que aqui nos reúne todos os anos. Simplesmente estar onde tinha de estar, cumprir aquilo que era o seu dever. Sem querer, sem concordar, sem apoiar, mas cumprindo. A grandeza deste sangue é aquela grandeza extraordinária de que são capazes as multidões. A única grandeza das multidões, a grandeza de estar, a grandeza de cumprir, a grandeza de se dar, mesmo àquilo com que não se concorda. Por ser o seu dever.

2. As razões do sangue

É difícil hoje compreender as razões deste sangue. Num tempo de direitos, este sangue fala-nos de deveres. Num tempo de ambições, este sangue fala-nos de entrega. Num tempo de realização pessoal, este sangue fala-nos de sacrifício. É difícil neste tempo compreender porque o sangue foi derramado. Para o nosso tempo é difícil até compreender porque vimos aqui, todos os anos, honrar o sangue derramado. Este sangue hoje não é compreendido. Este sangue hoje é invocado, é chorado, é lamentado, mas não é compreendido.

O nosso tempo compreende o heroísmo, compreende a coragem, compreende o valor. Aquilo que o nosso tempo tem dificuldade em entender é o silêncio, a entrega. O nosso tempo tem dificuldade em entender o sacrifício. Como é possível dar o sangue por algo com que não se concorda? Como se entende o sangue derramado por uma multidão? Isto hoje não sabemos. Hoje temos de o perguntar a este sangue.

O sangue fala-nos de algo maior que ele. Este sangue de multidão, este sangue comum, sangue normal, sangue de gente como nós, fala-nos de algo maior do que ele. Algo a que se entrega. Algo a que se sacrifica. Porque até o sangue sem feitos notáveis, até o sangue que não quer ser derramado, que não concorda com a guerra, que não quer estar ali, até esse sangue é sempre derramado por algo maior do que ele. É por isso que está ali. Por isso cumpre o seu dever.

Essa razão maior é muito diferente de uns para os outros. Mas existe em todos. A causa maior que inspira o dever é diferente em todos eles. Mas está presente em todos eles. Uns lutavam pela pátria, outros pela família, pelos amigos. Lutavam pela sua aldeia, pela sua terra. Alguns pela Fé e pelo império, outros pelos operários e pela sociedade sem classes, outros ainda pelo progresso e a civilização. Havia os que lutavam pela justiça, pela liberdade, pelo bem comum. Todos sabiam porque estavam ali, cada um com as suas razões. Mesmo os que não queriam estar ali. Mesmo os que não compreendiam bem porque estavam ali Mas cumpriam o seu dever.

Assim vemos a extraordinária grandeza deste sangue. Uma grandeza que, se virmos bem, é ainda maior que a da coragem, do heroísmo, da valentia. É notável alguém entregar a sua vida de forma nobre, num gesto elevado. Mas é mais notável ainda dar o seu sangue no silêncio e no esquecimento, numa guerra com que se discorda. Mas dá-lo por uma causa nobre, por uma razão maior. A sua razão. A razão da sua vida.

Esta é a grandeza das multidões, a grandeza de estar, a grandeza de cumprir, a grandeza de se dar a algo maior.

3. O que o sangue ouve

Isto é o que o sangue nos diz. Que podemos nós dizer-lhe? Que quer o sangue que lhe digamos? Que podemos nós dizer diante de tanto sangue?

Diante deste sangue, diante de tanto sangue, calam-se as retóricas e as figuras de estilo. Diante de um sangue longínquo, um sangue de multidão, um sangue de violência espalhado por múltiplas terras, que podemos nós dizer? Emudecem as ideologias e os discursos, empalidecem as exigências e as irritações.

Diante de tanto sangue a única coisa a dizer é o silêncio. O mesmo silêncio com que o sangue foi derramado. E nesse silêncio, o que há a dizer é o que nós dissemos hoje. A única coisa que há a fazer é rezar. Humildemente baixar a cabeça e rezar.

Rezar a Deus para lhe agradecer o que estas vidas nos deram. Agradecer tudo o que este sangue nos deu. Rezar a Deus para lhe entregar este sangue. Entregar-lhe tudo o que este sangue é. Rezar a Deus para lhe pedir que sejamos dignos daquilo que o sangue nos pede. Pedir que sejamos dignos deste sangue.

Rezar é o que o sangue nos pede que digamos.

4. A lição do sangue

É isto que o sangue tem hoje a dizer-nos. A nós que vimos cá todos os anos, é isto que o sangue diz dele mesmo. E isto é algo que devemos ouvir, porque é algo que raramente ouvimos. Algo que mais ninguém nos diz nos dias de hoje.

Hoje, felizmente, não nos pedem o sangue. Hoje já não se vê o sangue. O sangue que hoje existe é sangue escondido. Hoje já não há o sangue que o regime nos pede, pela guerra. O sangue que hoje há é aquele que nós pedimos ao regime, pelo aborto. E esse sangue não nos fala de dever. Fala-nos de prazer, de desespero, de abandono, de solidão, de infâmia. Este é o sangue do nosso tempo. Este é o sangue de um tempo de direitos, de ambições, de realização pessoal. Este é o sangue de quem não se quer dar.

Nos nossos dias a questão já não passa pelo combate, pela luta, pela morte. Por enquanto, não passa pelo combate, pela luta, pela morte. Não nos pedem sangue. Pedem-nos suor. Hoje o nosso dever não é o sangue, mas é o suor. Pedem-nos suor, pedem-nos lágrimas, pedem-nos impostos, pedem-nos regras e regulamentos. O nosso dever não nos exige que partamos para longe e lutemos até à morte. Já não é esse o nosso dever. Mas o dever pede-nos que trabalhemos, que procuremos emprego no desemprego, que paguemos, que cumpramos, que soframos.

Grande parte de nós não quer viver assim. Grande parte de nós não concorda com esta crise, não apoia sequer o regime que a declarou. Discordamos da política, condenamos a crise, criticamos os chefes, acusamos os erros. Regateamos o suor, as lágrimas, os impostos, as regras. Exigimos apoios, promoções, subsídios, aumentos. Não cumprimos o nosso dever.

Vimos diante deste sangue Vir aqui não é uma memória do passado, um nostálgica celebração de feitos antigos. É uma presença no presente e um compromisso para o futuro. Um compromisso para o nosso sangue.

Partimos daqui depois de celebrar este sangue. O sangue que, numa guerra muito pior que a nossa crise, estava ali e combatia. Por ser o seu dever. Sacrificava a sua vida. Não porque quisesse sacrificá-la, não porque apoiasse a causa, porque fizesse feitos notáveis, únicos. Simplesmente porque devia ali ir e tinha de cumprir o seu dever. E foi. E cumpriu. Até ao fim. Até ao sangue.

João César das Neves

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